sábado, 25 de setembro de 2021

#MOT 02 - O sentir, o decepcionar e o que fazer com isso tudo...

 




Não sabe o que é essa seção do blog? Aqui eu explico: http://dynamodudziak.blogspot.com/2021/09/mot-01-o-comeco-da-temporada-21-22.html

Cinco jogos na Premier League, nenhuma vitória e apenas três pontos conquistados. 

Se havia alguma dúvida de que seria difícil, agora não há mais... Claro que perder para o Manchester United e para o Liverpool estava meio que nos planos e que empatar com o Everton não é exatamente um mau resultado. Porém, na tabelinha de expectativas estavam duas vitórias contra Burnley e Newcastle. E não foi isso que aconteceu... Dois empates em jogos que na temporada passada foram vitórias. 

O empate contra o Burnley foi ruim porque talvez o mais justo fosse uma derrota, mas a igualdade contra o Newcastle foi um daqueles jogos revoltantes... O Leeds fez um bom primeiro tempo, mas só marcou um gol e perdeu outras cinco chances. O Newcastle por sua vez foi melhorando com o passar dos minutos com um Alain Saint-Maximin endiabrado. Foi dele o empate e poderia ser dele o gol da virada em um segundo tempo aberto, no qual o Newcastle teve mais oportunidades.

Na cabeça dos torcedores do Leeds só fica uma pergunta: o que está dando errado? 

Eu tenho palpites, mas por ora gostaria apenas de compartilhar como é a minha experiência de torcedor sendo também comentarista.

Durante o jogo do Leeds eu fico praticamente cego ao adversário. Só vejo o meu time. As marcações individuais, as movimentações dos homens de frente, os erros de passe, aquele cara que não está correndo (viu Rodrigo?)...  

E vou dizer: eu grito com os jogadores que estão fazendo errado!  Aliás, gritei muito alto quando Ayling recuou uma bola de forma equivocada contra o Newcastle. Tão alto que o gato veio me morder porque ficou estressado...  E ele estava certo. 

Bom, fato é que foi mais uma noite decepcionante.

Depois do jogo fiquei buscando explicações. Perdemos muitos gols, ficamos muito abertos quando perdemos a bola... Será que é não perder a bola em zonas perigosas o problema? Ou é desatenção na hora de encaixar a marcação? Eu fico obsessivo por uns três dias. 

Não que ajude muito se eu conseguir descobrir o problema, mas é como se fosse um alívio para mim... No entanto, também observei que estava com uma negatividade muito grande para com o time.

"Não vai ganhar"
"Vai cair"
"Estou perdendo tempo"

Não quero ter essa relação com o futebol do meu time. É uma das coisas que estou tentando combater no meu dia a dia como comentarista... Quero que recuperemos o prazer de torcer, a alegria de ver e a ansiedade que vem com o pensamento de que tudo é possível...

Por isso, uma hora antes do jogo contra o West Ham, sem Bamford, sem Llorente, Koch, Struijk e talvez sem Raphinha, Ayling e Harrison, vou me forçar a pensar: 

Eles vão conseguir!
Eles são capazes! 
Hoje é o dia da virada! 


A ver! 

domingo, 12 de setembro de 2021

#MOT 01 - O começo da temporada 21-22

Esse post é diferente de todos! 

Tenho esse blog desde 2010 e de lá para cá me concentrei em falar de futebol sob uma perspectiva mais analítica. Às vezes falando sobre tática, às vezes fazendo algumas brincadeiras e ironias com situações absurdas do nosso futebol...  Em nenhum momento, porém, me permiti falar como torcedor. Então agora vou fazê-lo...

Desde 2018 tenho acompanhado tudo do Leeds United de Marcelo Bielsa. Desde que ele chegou foram 144 jogos e acho que eu assisti uns 140, quase todos ao vivo, além de ter ouvido todas as coletivas dele desde então. Desde o ano passado também tenho visto quase todos os jogos do sub-23. Ou seja... Uma boa parte do meu tempo livre está dedicada a esse clube nos últimos anos. Algumas coisas eu compartilho no Twitter - como essas compilações de gols e bons momentos de jogos nos últimos três anos -, outras eu guardo pra mim. 

Às vezes quero falar algumas coisas, mas não tenho muito pra quem e também me inibo com receio de poluir a timeline do Twitter... Então decidi começar a escrever aqui.  Sem obrigação, sem pauta definida, sem sequer a necessidade de fazer muito sentido. 

É bem diferente do que eu me proponho - e espero estar conseguindo - fazer nos outros espaços. Por ser diferente, será uma seção com nome, o #MOT ali do título. Por quê?  Mot é a sigla para o refrão do hino do Leeds United: Marching on Together, ou seja, marchando juntos. Ao mesmo tempo, MOT é meu MOmento Torcedor (hã? hã?).  Mas como o título não é diferença o bastante, também apresento um esquema de cores distinto, com as cores do Leeds! 

Vamos? 



#MOT 01 - O começo da temporada 21-22
 

Bom, nesse primeiro post vou falar sobre a temporada 21-22 e o que temos pensado sobre. Faço esse post antes do jogo contra o Liverpool pela quarta rodada da Premier League. Estou esperando uma derrota, obviamente, porque a diferença é muito grande.  E diferença grande com time que joga sempre pra ganhar, muitas vezes dá muito errado. Mas nosso treinador é assim! Ele sempre acredita que o time dele pode superar qualquer um! 

Como Bielsa disse em entrevista à Sky Sports, ele tem a "ilusión", a esperança, de que contra o Liverpool "Raphinha, Bamford e Harrison possam ser melhores do que Salah, Jota e Mané" e que ele "sempre pensa que Rodrigo, Phillips, Klich e Dallas serão melhores do que Kanté, Mount e Kovacic". 

E é por isso que nosso treinador é ótimo! Porque não se trata apenas de acreditar, se trata de tentar fazer isso acontecer. É esse o objetivo. E isso passa por desenvolver jogadores e um estilo de jogo que permita a esses atletas - mais limitados - terem um funcionamento coletivo competitivo o bastante para bater de frente com qualquer um. 

Claro que quando o time toma uma pancada como o 5 a 1 para o Manchester United é muito ruim. Eu e todos os torcedores do Leeds pensamos "por que a gente não fechou tudo depois do 1 a 1?" e "será que a gente não podia defender lá atrás em vez de tentar marcar Pogba e Bruno Fernandes individualmente tão longe do nosso gol?", sem esquecer de: "precisamos contratar, no mínimo, mais um volante, um meia, um ponta e um centroavante". 

E aqui entro no grande tema desse começo de temporada 21-22... O Leeds está forte o suficiente para alcançar seus objetivos? 

Quando a janela de transferências abriu, os torcedores tinham enormes expectativas. Falava-se em Rodrigo De Paul, Matheus Cunha, Nandez, Noah Lang e muito mais... No fim, chegaram Junior Firpo e Daniel James. Bons reforços, sem dúvida, ambos têm tudo para acrescentar mais ao time do que Alioski e Hélder Costa, mas nenhum deles é o jogador capaz de elevar o nível da equipe ou de resolver as deficiências do meio de campo, setor no qual há menos opções hoje.  

A sensação da torcida é de que o Leeds precisava se reforçar para seguir crescendo e que, ao não fazê-lo, corre o risco não só de estagnar, como de regredir e de repente brigar para não cair, o que seria terrível, evidentemente.

A sensação do treinador, porém, é a de que todos os jogadores serão capazes de jogar ainda melhor nessa temporada... É a "ilusión" do começo do texto... 

Eu sinceramente não acredito. 

Para mim, tirando Raphinha e alguns mais jovens como Struijk e Kalvin Phillips, todos os jogadores do Leeds já estão no teto de desenvolvimento. Não acho que é possível melhorá-los ainda mais. Mas eu preciso reconhecer que eu não sou Marcelo Bielsa e que ele viu potencial em boa parte desses nomes lá atrás, quando brigar para subir era o maior dos sonhos. 

Daquele time-base da temporada 18-19 na segunda divisão, Ayling, Cooper, Phillips, Dallas, Klich e Harrison seguem como titulares, enquanto Meslier e Bamford viraram titulares no ano seguinte. Ou seja... Do time-base do Leeds na Premier League 21-22, oito eram jogadores da segunda divisão até pouco tempo! Nove se você contar Struijk, que veio da base, mas que jogou mais na Premier League do ano passado do que nas duas temporadas anteriores na segundona.  E esse time de atletas de segunda divisão chegou em nono na Premier League! 

Evidentemente não é que eles tinham um potencial que ninguém via, mas sim que o trabalho deles e o trabalho do treinador fizeram com que atletas medianos da segundona se tornassem postulantes a uma vaga em competição europeia pela classificação na Premier League (ainda que estejamos falando de Conference League...) 

O melhor exemplo de todos é Kalvin Phillips. Aos 25 anos o volante inglês hoje é considerado por muitos como um dos melhores da posição. Foi um dos destaques da Eurocopa e parece ainda não ter chegado ao limite. O que pouco se fala, no entanto, é que quando Bielsa chegou, Kalvin era um camisa 8 que às vezes jogava de 10 e que pouco lembrava o volante forte de pegada no meio, desarmes e lançamentos precisos. 

Isso é trabalho do treinador e o Leeds sabe disso. E aposta demais nisso! Tanto é que nesta janela de transferências, mais do que figuras para o time principal (já citamos Firpo e James), os Whites foram atrás de grandes talentos jovens de outros clubes. Apenas nesta janela chegaram:

- Kristoffer Klaesson, goleiro norueguês de 20 anos que veio do Valerenga

- Amari Miller, ponta inglês de 18 anos que veio do Birmingham

- Sean McGurk, ponta inglês de 18 anos que veio do Wigan

- Leo Hjelde, zagueiro norueguês de 18 anos que veio do Celtic 

- Lewis Bate, meiocampista de 18 anos que veio do Chelsea

Eles já fazem parte de uma segunda geração de jovens que vieram de outros clubes para o Leeds. Na janela anterior o clube contratou 

- Dani van den Heuvel, goleiro holandês, hoje com 18 anos, que veio do Ajax

- Cody Drameh, lateral-direito inglês, hoje com 19 anos, que veio do Fulham

- Crysencio Summerville, ponta holandês, hoje com 19 anos, que veio do Feyenoord

- Sam Greenwood, meia-atacante inglês, hoje com 19 anos, que veio do Arsenal

- Joe Gelhardt, centroavante inglês, hoje com 19 anos, que veio do Wigan


Todos esses jogadores vieram para o time sub-23 do Leeds, com a crença de que poderão em breve reforçar o time de cima. Essa é a estratégia do Leeds. Pegar jovens promissores, terminar a formação e colocar na equipe principal. Me parece muito coerente e sensato, mas é uma estratégia de longo prazo. Hoje o time tem problemas que esses meninos ainda não podem resolver... 

Mas se der certo... Puxa vida! Se der certo o Leeds terá um grande time a um custo baixíssimo na comparação com os gigantes europeus. 

Do meu sofá eu só quero que não seja rebaixado esse ano. Os jogos contra Manchester United, Everton e Burnley mostraram problemas defensivos graves e não estou nada otimista para o Liverpool, como eu já disse... Parece que a luta vai ser mais embaixo nesse ano, infelizmente. Na temporada passada muita coisa deu certo demais para o Leeds... Esse ano deve ser diferente. 

Mas vou exercitar meu bielsismo hoje... Acreditar que Raphinha, Bamford e Harrison serão melhores que Salah, Jota e Mané.  Crer que Meslier terá uma tarde de Alisson e que Llorente e Cooper serão Van Dijk.... Ter a fé de que Rodrigo Moreno vai saber quem pressionar e que Kalvin, Dallas e quem mais jogar sejam capazes de parar o meio de campo dos Reds.


E se não der... Bom. Se não der a gente sente a dor, engole o choro e volta de novo... 

Não tem outro jeito! Não é mais uma escolha torcer ou não torcer. 

terça-feira, 27 de julho de 2021

Uma reflexão sobre o árbitro de vídeo e os caminhos do jogo de futebol

Dizer que o VAR voltou ao debate nas últimas semanas seria um erro: ele nunca saiu do debate!
Porém, é inegável que os erros/decisões polêmicas favoráveis aos times brasileiros na Libertadores reacenderam a chama para discussões mais calorosas sobre a ferramenta. Entendo que essa é uma boa oportunidade para escrever algumas coisas que falo há muito tempo na Rádio CBN, mas que não havia compilado antes em um só local. 

Pra começar, acho importante dizer que não é mais possível termos esse esporte sem o árbitro de vídeo. Simples assim.  E não é por uma sanha moralista que falo isso. Sei que muitos ainda lembram com carinho da época do jogo jogado sem paralisações ou discussões intermináveis sobre frames e linhas, mas eu preciso trazer à tona que essa época é muito antiga. O recorte mais recente não era sobre "erros e acertos fazem parte" e sim sobre debates como "impossível não ter visto esse impedimento!", "a bola claramente pegou na mão", "esse contato da unha do pé é pênalti",  "houve interferência externa", "o juiz estava esperando o comentarista da Globo dizer se era pênalti ou não" e "como pode todo mundo em casa ver e o árbitro não?". 

Então, o VAR chegou em um momento no qual a interferência externa estava o tempo todo no debate das pessoas. Uma época na qual os juízes só apanhavam por tudo que não viam, mesmo que fosse humanamente impossível ver. Um tempo em que canais esportivos ficavam indo com frames para frente e para trás dizendo quais os erros da rodada (essa parte não mudou muito na verdade).

Por isso sustento: não tem como não termos mais o VAR. 

Porém, o VAR não precisa ser isso que estamos vendo aqui na América do Sul e no Brasil. Na verdade, ele não é para ser assim. 

Lembremos que no próprio nome o VAR diz a que veio: Video Assistant Referee.  Ou seja: juiz assistente de vídeo. Assistente! Não principal. Não protagonista. Dizia o "slogan": mínima interferência e máximo benefício. Ele é um auxiliar de juiz! Era pra ser, no caso... Na prática ele foi pervertido aqui na América do Sul.

Hoje o mais comum é o árbitro de vídeo apitar o jogo, a ponto de o juiz de campo se isentar de marcações e mudar o próprio entendimento das jogadas quando chamado pelo pessoal da cabine. O pessoal da cabine, por sua vez, tem gostado da brincadeira e assumiu para si o papel de "marcador de infrações". A varredura em busca de coisas para marcar tem interferido diretamente no andamento das partidas e suas consequências são sentidas por todos. Consequências essas que atentam diretamente contra o espírito do jogo de futebol.  O jogo é feito para ser jogado. Pode parecer óbvio, mas o padrão sul-americano de árbitros adotou o "o jogo é feito para não ter infrações".  Vejam... Não estou defendendo um jogo sem marcações da arbitragem ou no qual a ilegalidade, a violência e a trapaça sejam premiadas. Não é isso. É apenas a lembrança do objetivo do jogo. Muda tudo quando você tem a ideia fundamental em mente. Você apita e decide buscando sempre o espírito do jogo e não a marcação de infrações.

Considero isso fundamental de ser dito: a arbitragem do futebol não foi criada para marcar coisas. Ela foi criada para garantir o jogo. Isso mesmo na era pré-VAR. Essa ideia precisa ser retomada urgentemente! Só ela vai nos ajudar a reconquistar o significado do árbitro de vídeo. Somente com esse entendimento conseguiremos ter o VAR no lugar dele. Um lugar que aqui no Brasil foi atirado para escanteio por, na minha opinião, algumas razões:

- A falsa promessa de que o VAR resolveria todos os problemas da arbitragem: isso gerou a expectativa de que máxima intervenção seria máximo benefício, totalmente o contrário do "slogan" que citamos ali em cima.

- A conveniência da terceirização de responsabilidades: paixão dos envolvidos com o esporte número 1 do país, a arbitragem já ganhava todos os holofotes nos insucessos dos dirigentes, treinadores e jogadores. Isso segue com o vídeo, o que, na prática, gera e alimenta a responsabilização exagerada dos juízes, promovendo a expectativa e a cobrança de que marcar muitas coisas é o caminho a seguir. Fora as irritantes pressões às quais os árbitros estão sujeitos durante os 90 minutos de partida. Reclamações, simulações, brigas e desrespeito à autoridade do juiz são praxe e isso prejudica a turma do campo. 

- O escudo que o VAR oferece para a equipe de arbitragem de campo: tornou-se comum ver os juízes abdicando de marcações no campo para aguardar o vídeo. Além da falta de confiança gerada também pelas razões acima, há ainda um quê de conveniência em terceirizar a "bronca". Diz-se do manual informal da arbitragem: "mão na orelha, a culpa é do VAR e eu não posso fazer nada". 

- O péssimo ambiente gerado por jornalistas, fãs, torcedores e redes sociais: um pouco parecido com a primeira e segunda razões, mas acho que é necessário frisar que o clima de "não pode errar", "por que errou?", bem como a sugestão de que as linhas são erradas e que os frames são outros, ajuda a pressionar o VAR a ser o que ele não deveria e nunca poderá ser. 

Bom, expliquei acima as razões pelas quais eu acredito que o VAR foi colocado como protagonista na América do Sul e principalmente no Brasil. Esse raciocínio automaticamente gera a pergunta: mas não é assim em todo o lugar? Resposta: Não é.

Acompanho bastante futebol europeu e posso afirmar categoricamente que o VAR, com raras exceções, atua como deveria no Velho Continente. Por isso são poucas as paradas de mais de dois minutos e são várias as vezes em que o árbitro de campo vê o lance e marca com convicção, sem a necessidade de ficar aguardando a opinião de outros. A Euro, que foi acompanhada por muito mais gente, está aí para provar que o VAR pode ser bom. Pênalti no Sterling à parte e um ou outro vermelho controversos, entendo que o árbitro de vídeo do torneio continental foi rápido, eficaz e garantidor da qualidade do jogo. Esse deve ser o exemplo a ser seguido. No entanto, isso não quer dizer que ele não possa ser melhorado e que as regras não possam ser aprimoradas. 

Sim: as regras precisam ser aprimoradas nessa nova era de frames, linhas e pausas. Queria falar disso também. 

Para tanto, considero que o pênalti marcado para o Palmeiras contra a Universidad Católica no jogo de ida da Libertadores seja um excelente exemplo. No lance, Deyverson aproveita um rebote de falta para a área para cruzar da linha de fundo. O marcador Lanaro vira de costas para a bola. A bola bate no joelho dele e no braço, que está aberto. O VAR marca pênalti. 



Muita discussão no campo e nas redes. Na comunicação do VAR, liberada pela Conmebol no dia seguinte, o árbitro de vídeo diz que "é uma mão de bloqueio" e "antinatural". Os termos estão corretos e a discussão é justamente essa (já volto a isso), principalmente o último ponto: o antinatural. No entanto, no dia do jogo as redes sociais foram inundadas de discussões sobre orientações da Conmebol para bola na mão e mão na bola. Trata-se de um documento que a entidade divulgou dois dias antes e que teoricamente serviria de balizador para decisões. Nele muita gente viu a semelhança entre a mão do Lanaro e a mão do De Ligt, que está neste material da Conmebol como mão sancionável.




Mais do que dizer "em ambos os casos bate no corpo e na mão", porém, o que tem que ser discutido é o natural e anti-natural. Essa é a mais recente orientação da IFAB, a chamada International Board, que é a detentora das regras e balizas para a aplicação delas. Nas orientações para a temporada 21-22 o texto de mão na bola e bola na mão diz que: 

"Nem todo toque de mão ou braço é falta. É falta se o jogador:

- deliberadamente toca com a mão na bola ou braço, por exemplo, movendo a mão ou braço em direção à bola. 
-Toca a bola com a mão ou braço fazendo o corpo maior de forma antinatural. Considera-se que um jogador tornou o corpo maior de forma antinatural quando a posição do braço ou mão não é uma consequência ou, não está justificada, pelo movimento do corpo naquela situação específica".

Diz ainda o texto da IFAB na parte de explicações sobre a mudança no texto: "Os árbitros devem julgar a "validade" da posição do braço ou mão em relação ao que o jogador está fazendo naquela situação particular".

Bom, é justamente o contrário do que a Conmebol fez com esse documento em que dá "exemplos do que marcar". É o contrário porque a IFAB fala em árbitros julgarem a validade e não em recorrerem a uma tabela do que marcar ou não.  

Temos aqui uma questão muito importante para os rumos do futebol nos próximos anos e para a nossa situação no Brasil. Percebam que o texto tira ainda mais a objetividade da regra, que era aquela série de orientações como "corpo maior", mão acima do ombro, mão de apoio, tempo de reação, "ao lado do corpo" ou "não é falta se bate no corpo antes", etc. Agora o texto é substancialmente subjetivo: "é natural ou antinatural?" "é justificado pelo movimento que o atleta tentou fazer naquele momento?". 


Espero que faça sentido o que estou tentando argumentar. Em suma: o caminho para termos um VAR bom e um esporte justo é justamente o contrário do que estamos buscando no Brasil. O caminho é sim a subjetividade. Baseada por critérios, evidentemente, mas sem o caderninho de regras de quando marcar ou não marcar. E quais critérios devem balizar a subjetividade inerente e buscada? O JOGO de futebol.

Então se estamos vendo no Brasil essa busca de marcar tudo, se no Brasil estamos presenciando o VAR caça-pênalti, o vídeo intervencionista, o protagonista na cabine e não no campo, o mundo do futebol por sua vez tem se conscientizado de que o caminho para melhorar o jogo não é esse. O caminho é defender o jogo. É ter subjetividade balizada pelo jogo. O que é melhor para o jogo? O que beneficia os protagonistas? 

Para além da orientação da IFAB para mão na bola e bola na mão, destaco outras medidas que vem sendo tomadas na Europa como aumentar a grossura das linhas de impedimento no vídeo (o que volta a colocar o atacante em vantagem), implementar  um VAR dedicado a impedimentos (para impedir pausas longas) e definir o que é a axila para fins de impedimento (o intuito é evitar lances bizonhos como o abaixo).


Para além das minúcias e discussões sobre o que mudar e como mudar para retomarmos o jogo, deixo aqui a reflexão do técnico e guru Marcelo Bielsa quando perguntado sobre o VAR:

"Eu não sou a pessoa mais indicada para sugerir algo, mas me parece que, se as regras se simplificassem e não ficassem tão distantes da percepção humana, todos estaríamos agradecidos. Então, o que eu imagino, e não sei como seria possível, porque eu não entendo desse tema, é que não devemos admitir a injustiça ou o erro e a falha, mas sim flexibilizar a norma para que não seja necessária tanta precisão meticulosa para tomar a decisão adequada. Mais que flexível, deve ser mais simples. Que deixe menos margem de dúvidas e assim tenhamos menos intervenções da tecnologia. A luta pela precisão sabe-se quando começa, mas não como termina. São mais sábios os que simplificam do que os que usam muitas ferramentas para decidir. Em resumo: eu gostaria de um regulamento no qual quando há uma mão na bola todos saibamos que é uma mão na bola. E quando há um impedimento, todos saibamos que foi um impedimento."


Brilhante! É exatamente disso que precisamos! 

Não precisamos de mais precisão. Precisamos recuperar o espírito do jogo. Não queremos a injustiça, mas também não queremos um jogo artificial de paradas, linhas, axilas e frames. Achar esse meio termo não é fácil, mas tem que ser a busca de todos que  amam esse esporte. 






















domingo, 18 de julho de 2021

Um desafio às narrativas do momento são-paulino

 A sequência de três vitórias em 15 jogos do São Paulo é difícil de explicar. 

Um time que jogou muito bem no Campeonato Paulista e que foi merecedor da conquista parece fazer tudo pior nos últimos dois meses. A equipe intensa na marcação até aparece vez ou outra, mas a falta de criatividade com a bola nos pés chama muito a atenção. Há uma série de causas que podem ajudar a chegar a um diagnóstico sobre o time neste momento, mas entendo que pegou muito forte na imprensa a narrativa de cansaço + desfalques. Esse combo parece explicar tudo para a maioria dos analistas, mas a realidade me mostra outra coisa. 

Para mim o São Paulo tem graves falhas no seu modelo de jogo, principalmente no momento ofensivo. Hoje o tricolor é um time que cai facilmente na armadilha de jogar pelo lado. É um time que cruza sem vantagens na área. É um time que tem pouco jogo por dentro. Que finaliza pouco. 

Segundo a plataforma Wyscout, no Brasileirão o tricolor tem a maior média de cruzamentos por jogo (19,5) e a décima quinta média de finalizações (8,5 por jogo), o que ajuda a explicar a décima quinta posição em gols esperados (era pra ter feito 11 e fez 8). Ao mesmo tempo, por mais que não conceda muitas chances ao adversário - tem a segunda menor média de chutes contra por jogo (8,2) -  ocupa a sétima colocação em expectativa de gols sofridos (era pra ter sofrido 13 e sofreu 11).

Não era assim no Paulistão. Talvez pelo nível mais baixo dos adversários, talvez por uma maior intensidade nas ações... O fato é que mesmo sem algumas peças, o time deveria fazer coisas melhores principalmente com a bola nos pés. 


Sobre isso aliás, queria aproveitar para desmitificar algumas narrativas que considero equivocadas. 

1- Desfalques

Convencionou-se atribuir a maior parte dos problemas do São Paulo aos desfalques... Isso pode ajudar a explicar algumas coisas, mas não todas... Vamos relembrar as escalações do São Paulo nessa sequência de 3 vitórias em 15 jogos? Vou contar apenas desfalques por contusão e seleção pois suspensões são do jogo e normalmente só afetam uma partida. No primeiro pedaço da sequência de jogos os desfalques foram Arboleda, Daniel Alves, Luan e Benítez. Luan chegou a jogar o primeiro jogo da sequência, mas vamos fechar em quatro desfalques por contusão/seleção. Confiram: 

São Paulo x Fluminense: Volpi; Bruno Alves, Miranda e Léo; Igor Vinícius, Luan, Liziero e Reinaldo; Sara, Igor Gomes e Pablo.   Vieram do banco Luciano, Éder, Rojas e Shaylon. 

Contra o 4 de Julho foram os reservas, então deixemos de fora.

São Paulo x Goianiense: Volpi; Bruno Alves, Miranda e Léo; Igor Vinícius, Shaylon, Nestor, Sara e Reinaldo; Rojas e Luciano.   Vieram do banco: Rigoni, Éder, Galeano 

São Paulo x 4 de Julho: Volpi; Bruno Alves, Miranda e Léo; Rigoni, Nestor, Sara e Reinaldo;  Éder, Luciano e Pablo.  Vieram do banco: Igor Gomes, Igor Vinícius, Wellington, Shaylon e Rojas

São Paulo x Atlético Mineiro: Volpi; Bruno Alves, Miranda e Léo; Rigoni, Sara, Liziero, Nestor e Reinaldo; Luciano e Pablo.  Vieram do banco: Igor Vinícius, Igor Gomes e Rojas

Aqui Miranda passa a ser desfalque também. São cinco desfalques. (Arboleda, Daniel Alves, Luan, Benítez e Miranda)

São Paulo x Chapecoense: Volpi; Igor Vinícius, Bruno Alves, Reinaldo e Sara; Liziero e Nestor; Rojas, Luciano e Rigoni; Éder.  Vieram do banco: Léo, Bruno Rodrigues, Wellington e Pablo. 

Aqui Benítez volta, mas Luciano machuca. Seguimos em cinco desfalques por contusão/seleção. (Arboleda, Daniel Alves, Luan, Miranda e Luciano)

São Paulo x Santos: Volpi; Diego Costa, Bruno Alves e Reinaldo; Igor Vinícius, Liziero, Rigoni, Sara e Wellington; Luciano e Éder. Entraram: Léo, Talles Costa, Benítez, Rojas e Galeano

Aqui Daniel Alves volta.  São quatro desfalques por contusão/seleção. (Arboleda, Luan, Miranda e Luciano)


São Paulo x Cuiabá: Volpi; Diego Costa, Bruno Alves e Léo; Orejuela, Liziero, Sara, Benitez e Wellington; Éder e Rigoni.  Entraram: Daniel Alves, Vitor Bueno, Talles Costa, Rojas e Pablo

Aqui Sara machuca, mas Luan volta. São quatro desfalques por contusão/seleção. (Arboleda, Miranda, Luciano e Sara)

São Paulo x Ceará: Volpi; Diego Costa, Bruno Alves, Reinaldo; Daniel Alves, Liziero, Igor Gomes, Nestor e Wellington; Vitor Bueno e Éder. Vieram do banco: Benítez, Luan, Rigoni e Pablo

Aqui Miranda volta. São três desfalques por contusão/seleção (Arboleda, Luciano e Sara)

São Paulo x Corinthians: Volpi; Bruno Alves, Miranda e Léo; Igor Vinícius, Daniel Alves, Liziero e Reinaldo; Benítez e Éder. Vieram do banco: Diego Costa, Nestor, Bueno, Igor Gomes e Rigoni. 

São Paulo x Bragantino: Volpi; Bruno Alves, Miranda, Léo; Daniel Alves, Luan, Liziero e Reinaldo; Rigoni, Benítez e Éder.  Vieram do banco: Diego Costa, Nestor, Bueno, Rojas e Pablo

Aqui Miranda vira desfalque, mas Arboleda volta. São três desfalques por contusão. (Luciano, Sara e Miranda)

São Paulo x Inter: Volpi; Bruno Alves, Arboleda, Léo; Luan, Daniel Alves, Luan, Igor Gomes, Nestor e Wellington; Rigoni e Éder. Vieram do banco: Diego Costa, Liziero, Talles Costa, Bueno e Rojas. 

Aqui Daniel Alves e Rigoni se tornam desfalques, mas Sara volta. São quatro desfalques por contusão/seleção (Luciano, Miranda, Daniel Alves e Rigoni)

São Paulo x Bahia: Volpi; Diego Costa, Arboleda e Léo;  Liziero, Igor Vinícius, Talles Costa, Sara e Reinaldo; Vitor Bueno e Pablo. Vieram do banco: Igor Gomes, Benítez, Marquinhos e Galeano

São Paulo x Racing: Volpi; Diego Costa, Arboleda e Leo; Igor Vinícius, Luan, Liziero, Nestor e Wellington; Éder e Igor Gomes. Vieram do banco: Benítez, Vitor Bueno, Marquinhos, Talles Costa e Sara

Aqui Éder se junta à lista. São cinco desfalques por contusão/seleção (Luciano, Miranda, Daniel Alves, Rigoni e Éder)

São Paulo x Fortaleza: Volpi; Arboleda, Bruno Alves e Leo; Luan, Galeano, Igor Gomes, Nestor e Reinaldo; Pablo e Rojas. Vieram do banco: Benítez, Bueno, Talles Costa, Marquinhos e Sara. 


Em suma: o São Paulo oscilou entre quatro e cinco desfalques a cada jogo. Prejudica? Sem dúvida. Mas a média de desfalques de qualquer time em competição é essa. O Palmeiras ficou sem três pela Copa América e também teve lesionados. O Flamengo a mesma coisa. O Atlético Mineiro também. Não há algo absurdo na situação são-paulina. Talvez um pouco acima, mas não tanto assim.  


2- Benítez faz muita falta.

Quem passou pela lista dos desfalques deve estar pensando que eu não fui justo com a situação do Benítez, que raramente cumpriu 90 minutos. A questão é que nós não sabemos porque ele pode jogar um pouco e não muito e nem se ele poderia ficar fora de mais jogos pra fazer outros completos. Independentemente disso eu quero discutir se Benítez fez falta nessa sequência.

Vamos só lembrar: Benítez jogou o Paulistão pelo São Paulo e foi fundamental no mata-mata, mas até chegarmos a essa sequência terrível do tricolor ele tinha jogado 608 minutos com a camisa do time entre a estreia contra o Santo André e o primeiro jogo da final contra o Palmeiras, passando pelos jogos da Libertadores. Sabem quantos minutos o São Paulo teve nesse período? 1800, ou 20 jogos. Isso quer dizer que o meia-armador tinha jogado apenas um terço do tempo que o São Paulo jogou antes de entrar nessa sequência terrível. 

E os números? Um gol e três assistências. 

Então para mim não é verdade que ele faz muita falta. Pode fazer falta, mas não tanta assim. 


3- O São Paulo não tem elenco e dinheiro.

Essa é a que mais pega pra mim. Fiquei extremamente surpreso que o técnico Hernán Crespo tenha vindo com a carta de "não temos dinheiro" para falar que o processo é demorado. Sem dúvida que o processo é demorado, mas o São Paulo tem elenco e gastou dinheiro para ter. Para relembrar: apenas Brenner e Juanfran saíram do elenco que brigou pelo título nacional na temporada passada e que terminou no quarto lugar. 

Chegaram Miranda, Éder, Benítez, Rigoni e Orejuela. Teoricamente todos para serem titulares da equipe. Se é bem verdade que o São Paulo não gastou com compra de direitos econômicos de quatro dos cinco atletas, também é certo dizer que desembolsa com salários altos.  

Em termos relativos, me parece que só o Atlético Mineiro contratou mais que o São Paulo em qualidade e quantidade na Série A.  Nem Flamengo e Palmeiras se mexeram tanto. Então, não me parece certo o São Paulo dizer que "não tem dinheiro e por isso demora mais". Pode não ter agora, mas os investimentos para a temporada já foram feitos! 

E sobre elenco... Entendo que o tricolor tem o quarto melhor elenco da Série A do Brasileiro. Sei que isso pode parecer surpreendente, mas eu tenho dificuldades para dizer quem além de Flamengo, Galo e Palmeiras tem um grupo melhor de jogadores. O Internacional? Pode ser. Grêmio? Acho que não. Fluminense? Também acho que não. Bragantino? São muitos garotos bons potencializados pelo treinador. Aceito debate porque vai muito da ideia que cada um tem sobre cada jogador, mas não consigo vislumbrar o São Paulo abaixo da sétima posição. Pra mim, no entanto, é o quarto colocado.  

A questão é saber potencializar as individualidades. 

O São Paulo tem um goleiro de bom nível. Tem três zagueiros que jogariam em qualquer time da Série A (Arboleda, Bruno Alves e Miranda), tem um zagueiro muito bom na saída de bola que é o Léo, tem o Reinaldo que embora não seja excelente, certamente está entre os bons laterais da divisão, tem Daniel Alves, tem quatro garotos que são joias a serem lapidadas (Liziero, Nestor, Sara e Igor Gomes), tem Rigoni e Benítez, tem Éder, tem Luciano e - sim - tem Pablo, que jogou muito bem no CAP e que foi disputado por muitos times. A questão é fazê-los render.  Quem tem mais que isso além de Palmeiras, Galo e Flamengo?


Em tempo... Crespo merece tempo. Um ano no mínimo. Mas Crespo não merece uma proteção falsa calcada em narrativas. Reconhecer isso não é pedir demissão nem pressionar treinador. 


PS: Se encontrarem algum erro em dados, minutos e informações me falem! Quero debater e não lacrar. 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O jogo do "encontre o diferente" nas falsas análises sobre futebol

Vira e mexe quando passo pelos canais da TV a cabo e chego nos "abertos" me deparo com atrações que jamais assistiria e deixo lá por um tempo. Em várias dessas zapeadas cheguei e deixei naqueles game shows que tem um chroma key, um apresentador hiperativo e alguma coisa na tela que é para o telespectador incauto/ingênuo "resolver" ou "decifrar" para ganhar um prêmio em dinheiro. Um desses "programas" trazia o jogo do "ache o diferente". Basicamente aparecem na tela 30 imagens parecidas e uma é diferente. Teoricamente ao achar a diferente você ligaria lá e ganharia o prêmio em dinheiro... Sem entrar nos méritos das várias denúncias de fraudes e má-fé que envolvem esse tipo de programa, gostaria de recorrer a essa proposta do game-show para falar sobre análises e opiniões sobre futebol. 



Nos últimos tempos tenho prestado cada vez mais atenção a isso. O "diferente" incomoda muito quem fala sobre futebol. A ponto de derrotas ou insucessos serem muitas vezes "explicados" por meio daquilo que foi feito de diferente, mesmo que isso não tenha relação alguma com a performance da equipe no gramado. 

O mais vigoroso exemplo que lembro dessa linha de análise em tempos recentes foi o jogo Emelec 2x0 Flamengo em Guaiaquil na Libertadores de 2019.  Naquela ocasião um recém-chegado Jorge Jesus não tinha Vitinho, De Arrascaeta e Everton Ribeiro para montar o setor de frente da equipe. A escolha então foi por Diego, Gérson e Arão por dentro, Bruno Henrique mais pela esquerda, Gabriel Barbosa no comando de ataque e Rafinha na ponta direita com Rodinei na lateral. As análises pós-jogo foram quase unânimes: Jorge Jesus "inventou" e o Flamengo perdeu. Simples não? Bastou olhar para os outros jogos e identificar o "diferente" para ganhar um prêmio - não em dinheiro, mas em "análise". 

De fato Rafinha não foi bem pela ponta direita, mas a derrota não teve a ver com essa escolha. Ou pelo menos ninguém conseguiu demonstrar que foi isso que causou a derrota. Além disso sumiram as discussões sobre qual era a ideia do treinador a fazer essa improvisação, quem deveria ser escalado ali e quem poderia ter feito coisa melhor e porquê. O Jesus "pardal" foi esquecido na semana seguinte e nunca mais voltou... Imagino eu que pelo fato do Flamengo praticamente não ter perdido mais depois daquela partida. 

Ainda sobre o Flamengo, recentemente os analistas correram para criticar a ideia de Rogério Ceni de "improvisar" Willian Arão na zaga da equipe. Sem debater o que poderia dar certo e errado, quais os pontos necessários para ser um zagueiro e o que Arão poderia adicionar e retirar do time, a ideia foi rechaçada. O "diferente" foi encontrado e caberia a ele explicar qualquer infortúnio ou dissabor. A questão é que a ideia deu muito certo e hoje - véspera da decisão contra o Internacional - a mesma turma lamenta o desfalque de Willian Arão na zaga. 

Sobre o Internacional, aliás... No começo de 2020 o "problema" do time treinado por Chacho Coudet era o fato de o técnico escalar "quatro volantes", o que seria uma ofensa à história do Internacional e razão pela qual a equipe não ganhava Grenais. Uma bobagem, pois no esquema 4-1-3-2 , apenas Musto tinha função de marcador, com Edenílson, Patrick e Lindoso pressionando o adversário no ataque e carregando a bola para os dois atacantes da equipe. Só que "é diferente", então é problemático. 

Voltando ao caso dos zagueiros... Quem se lembra da reação dos jornalistas e torcedores do São Paulo à ideia de escalar o lateral-esquerdo Léo e o jovem Diego Costa como defensores do tricolor na arrancada do time no Brasileirão de 2020? Foram as piores possíveis... Como assim fazer diferente? Fugiram à maioria as razões pelas quais o treinador poderia fazer isso, como eram os gols que o time estava tomando, de que maneira Léo e Diego poderiam contribuir e o que o técnico queria com as mudanças. Como o time ganhou, o "ache o diferente" ficou de lado por um tempo... Mas não por muito, pois logo na sequência veio a tese sebastiânica do volante Luan... Afinal, o São Paulo era o único que não jogava com um "primeiro volante", logo...  

De alguma maneira a própria ideia de Fernando Diniz sobre futebol foi atacada desde o início também por isso. "Como ousa esse cidadão propor algo diferente, quando todo mundo joga igual". Obviamente quando os insucessos vieram a culpa foi da "saída de bola" ou "da ideia de jogo", junto com uma estúpida cobrança por "ter outro jeito de jogar". Nada disso é capaz por si só de explicar derrotas e vitórias. E no caso ainda existe o agravante de o ex-técnico do São Paulo ter sido alvo da mais sórdida e desonesta campanha de desinformação e manipulação por parte de jornalistas que eu já vi na minha carreira. Mas essa é outra história... O ponto é: É muito mais fácil olhar para o diferente e dizer "foi isso". Porque o padrão dos outros dá conforto para uma lógica simplória, alheia ao jogo... "Se ninguém faz isso, ou ninguém fez isso e ganhou, então o diferente está errado". 

Eu vi o mesmo acontecer no São Paulo com Juan Carlos Osório e suas mudanças de escalação e posições e com Diego Souza, que "não era centroavante" e "não deveria ser centroavante". em 2018.  Sem debate, sem olhar para o campo, sem ponderar as intenções... Simplesmente um "ache o diferente" e retire seu prêmio. 

Pra fechar, um exemplo internacional... De forma geral pelo o que eu acompanho do futebol europeu as "improvisações", mudanças de posição, ideias diferentes e filosofias distintas de jogo são mais bem aceitas. No entanto, recentemente vi um movimento parecido com esse do "ache o diferente" no que se refere à campanha do Leeds United na Premier League. O técnico Marcelo Bielsa tem isso muito marcado na carreira. Por ter métodos diferentes e ser um "romântico da bola", muitas críticas recaem naquilo que ele faz de diferente. No entanto, o caso aqui é outro e se refere à resistência da imprensa e opinião pública à ideia do Leeds de jogar com a bola, atacar e propor o jogo contra todas as equipes que enfrenta. Tal proposta fez a equipe ter  derrotas incontestáveis, como dois reveses por 4 a 1 para Crystal Palace e Leicester, um 3 a 0 para o Tottenham e um 6 a 2 contra o maior rival Manchester United. Em todos esses dissabores o discurso da opinião pública e imprensa foi "o Leeds é ingênuo por achar que pode subir para a Premier League e jogar de igual pra igual". De onde vem essa verdade? Me parece que vem do fato de que normalmente quem sobe da segunda divisão passa 38 rodadas se aguentando na defesa e contando com os contragolpes para somar seus pontos e - quem sabe - sobreviver. Para alguns soa como um insulto não seguir a "cartilha dos humildes". Como assim eles não estão dispostos a vir aqui, se fechar e torcer por um erro?  Bom.. De qualquer maneira, até agora são 24 jogos disputados com 10 vitórias, 2 empates e 12 derrotas, o que coloca a equipe no meio de tabela. 

Pra fechar: esse exercício do "identifique o diferente" vir do torcedor não me incomoda muito. Ele não tem que pensar o jogo - embora eu ache que ele aproveitaria mais o clube e o jogo se o fizesse - e sim sentir. Mas de quem forma opinião me incomoda demais. Porque teoricamente o papel do jornalista/comentarista é ter dados, fatos, argumentos, informações e credibilidade para mostrar às pessoas o que está acontecendo. Que o exercício de análise de um esporte e um tema tão complexo se reduza a um gameshow de quinta categoria me parece uma ofensa e um desperdício. 





quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Os problemas defensivos que impedem o São Paulo 20-21 de brigar por coisas grandes

 A derrota para a LDU do Equador em Quito deixou o São Paulo com chances mínimas de classificação à próxima fase da Libertadores. Como de costume os olhos da imprensa se voltaram contra o treinador Fernando Diniz, mas não se aprofundaram nas responsabilidades do treinador e no que vem acontecendo com o time. O gol em erro de saída de bola - primeiro desse tipo em muito tempo - gerou mais debate do que as ideias do time e o que ele apresenta de bom e de ruim nos últimos jogos. Ao mesmo tempo a figura do treinador, o currículo dele e uma resposta tirada de contexto foram muito mais destacadas do que os jogos propriamente ditos. Como não tenho a relevância dos que falam sobre esse tipo de tema, me convém tentar aprofundar um pouco o debate sobre o trabalho de Fernando Diniz à frente do São Paulo. 

De forma resumida, considero que Diniz conseguiu rapidamente dar uma cara a um São Paulo que sabia se defender e não sabia atacar. Era um problema antigo, que vinha desde 2016. Com Bauza, com Ricardo Gomes, com Rogério Ceni, com Dorival Júnior, com Aguirre, com Jardine e com Cuca o São Paulo defendia bem e atacava mal.  Em setembro de 2019 isso começou a mudar a partir do trabalho de Fernando Diniz. Inicialmente foram mudanças discretas que geraram mais volume de jogo ao time, mas com pouca efetividade. Tanto é que o tricolor encerrou 19 com o pior ataque de sua história, anotando 59 gols em 62 jogos no ano. Destes 59, dezesseis foram marcados sob o comando de Fernando Diniz em 17 jogos. 

Em 2020 Fernando Diniz conseguiu imprimir a sua marca ao time. Toque de bola, saídas desde o goleiro, criação de chances e - infelizmente para o treinador - falta de efetividade. Ainda assim o São Paulo chegou à parada pela pandemia com boa campanha no Paulistão e na Libertadores, tendo marcado 18 gols e sofrido 9 gols nas primeiras 12 partidas do ano.  

A pandemia quebrou o bom momento do São Paulo e o retorno não foi nada bom. O ataque seguiu produzindo e a eficiência aumentou, mas a defesa passou a errar como não havia errado nos nove meses anteriores do trabalho de Fernando Diniz.  Para termos uma visão melhor do que ocorreu, quis fazer uma espécie de raio-x dos gols sofridos desde a volta do futebol.  Foram 24 em 15 jogos! É claro que houve vários momentos ruins que não geraram gols do adversário, mas no fundo estamos falando de situações que custam resultados, então meu recorte será nos gols sofridos. 

A ver: 

São Paulo 2x3 Bragantino 

O primeiro gol do Bragantino surge em um erro de saída de bola do São Paulo/desarme do Bragantino no campo de ataque. A bola chega na entrada da área e o tricolor não consegue abafar o chute de Matheus Jesus. 

Momento defensivo do São Paulo sem pressão no zagueiro do Bragantino. A linha defensiva do São Paulo ensaia uma linha de impedimento, mas não sai a tempo. Arboleda até chega na recuperação, mas é driblado e o tricolor toma o gol 



No terceiro gol de novo não há pressão na bola e a virada de jogo chega em Arthur. O São Paulo chega na recuperação, mas defende mal a própria área. Apenas cerca e vê o atacante acertar uma bela finalização.


Guarani 1x3 São Paulo

 


Em que se pese o fato de o time ter sido escalado com reservas, o gol do Guarani é semelhante ao terceiro do Bragantino e a alguns outros que veremos.  Lançador sem pressão vira o lado da jogada, a defesa até se recompõe, mas não há agressividade para encurtar espaços ou desarmar jogadores. Nesse gol ainda tem falha do Volpi.  


São Paulo 2x3 Mirassol


A fatídica eliminação para o Mirassol começa com um gol "inédito" na volta do futebol. Bola parada. Todo o time do São Paulo corre para o primeiro pau e deixa o atacante do Mirassol sem marcação alguma. 


O segundo gol é de uma segunda bola que o São Paulo não consegue lidar.  É uma transição defensiva, mas não houve desarme do Mirassol. Houve uma passividade grande e um time que estava posicionado para atacar e não se armou para lidar com o ataque do rival.  Arboleda e Bruno Alves longe, Reinaldo tentando voltar... 


O terceiro gol é um cruzamento que desvia no lateral, a bola sobe, Volpi e Arboleda se embananam e ninguém encurta Daniel Borges, que acerta uma bela finalização. 


Vasco da Gama 2x1 São Paulo


Olha a bola parada aí de novo! Três na bola, ninguém no Cano. 


O segundo gol do Vasco é uma transição ofensiva veloz depois de Paulinho ser desarmado no meio de campo. O tricolor consegue ainda voltar e fazer um 4 contra 3, mas de novo... Passividade na marcação e muita gente olhando a bola.  O passe pro meio vira simples demais para o segundo gol de Cano. 


São Paulo 1x1 Bahia 



Mais uma vez: pouca pressão em quem lança a bola e linha adiantada. Foi a última partida da dupla Arboleda e Bruno Alves como titulares. 


São Paulo 2x1 Corinthians


Depois de dois jogos sem sofrer gols o São Paulo foi vazado pelo Corinthians. Hernanes deu um chutão para o alto, a bola caiu com Cantillo que encontrou Ramiro entrando e a defesa do São Paulo saindo. Para piorar, Volpi falhou. 


Atlético Mineiro 3x0 São Paulo 


Após 30 minutos excelentes de pressão no campo do adversário e chances de gol o São Paulo teve Tchê-Tchê desarmado na saída de bola. A defesa corre para trás, mas ninguém aperta o "lançador" e Leó se perde na orientação corporal, permitindo que Alan Franco fosse para o gol. 


Mais um dos gols bobos que o São Paulo se acostumou a tomar na volta do futebol. Bico do goleiro Rafael. Ninguém ganha a primeira bola, ninguém ganha a segunda bola.... 


Mais um gol de bola parada. Segundo pau desprotegido.


São Paulo 3x1 Fluminense


Provavelmente o mais bobo dos bobos gols sofridos pelo São Paulo. Bico do goleiro e Igor Vinícius é driblado pelo quique da bola 


São Paulo 1x1 Bragantino





Mais uma vez o São Paulo toma um gol pela pouca pressão em quem tem a bola. Claudinho vira o jogo para a esquerda. Mais uma vez o São Paulo chega a tempo de fazer algo, mas Hernanes dá o bote errado e a área fica livre. 


Santos 2x2 São Paulo

Bola parada. Madson ganha no alto e faz o gol. O segundo não tem print. O goleiro decidiu defender uma falta sem barreira...


São Paulo 2x2 River Plate 



Outra vez! Lançamento sem pressão, bola nas costas da defesa. O São Paulo chega a tempo, mas é passivo na marcação. 




Bola parada, o São Paulo afasta a primeira, afasta a segunda, mas ela fica dentro da área. Reinaldo e Igor não se decidem. Ninguém vai na bola e o River marca o gol. 


LDU 4x2 São Paulo 


A pior exibição defensiva do time veio no jogo mais importante desde a eliminação no Paulista. Borja faz um dois e corre para dentro da área. Mesmo em superioridade numérica os são-paulinos olham o centroavante entrar e cabecear. 


O famigerado erro da saída de bola. Igor Gomes mandou na fogueira. Hernanes de costas (posicionamento corporal equivocado) não soube que estava tão pressionado.  Foi o único erro do tipo que resultou em gol do adversário nesse período pós-paralisação. 


Lançamento da defesa, Diego Costa ganha a primeira. Ninguém do São Paulo está próximo para a segunda bola...  Muito espaço para dois zagueiros defenderem. 


Pra fechar... Bola sai do lado pro meio.  São Paulo tem quatro dentro da área e um tentando encurtar... Fácil, fácil para Billy Arce. 


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Terminamos! Em suma, na minha avaliação os 24 gols sofridos pelo São Paulo podem ser definidos em: 


Pouca pressão na bola e comportamento ruim na defesa à própria área:  12 gols (Dois contra o Bragantino, contra o Guarani, contra o Mirassol, contra o Vasco, contra o Bahia, contra o Galo, contra o Bragantino no BR, contra o River, três contra a LDU)

Erros na bola parada: 4 gols (Zé Antônio Mirassol, Juanfran e cia contra o Vasco, Bueno contra o Galo, Diego Costa e Leo contra o Santos)

Erros na saída de bola: 3 gols (Reinaldo/Igor desarmados contra Bragantino, Tchê-Tchê contra o Galo, Hernanes e Igor contra LDU) 

Falhas individuais (goleiro/zagueiro): 5 gols (Volpi/Arboleda contra Mirassol, Volpi contra Corinthians, Igor Vinícius contra o Flu, Volpi contra Santos, Igor/Reinaldo contra River Plate) 


Razões para essas falhas?  Cada caso é um caso, mas de forma bem geral... Acho que o São Paulo tem tentado subir a marcação sempre, mas com os atacantes e a linha de meiocampistas. Com isso a defesa fica longe.  Pra piorar, mesmo quando eles se recuperam há pouca combatividade na hora de encurtar os espaços. Os atletas parecem mais fechar linha de passe do que dar combate. Pode ter a ver com Leo e Diego serem mais novos no time titular e com o pouco poder de marcação dos laterais. Certamente a falta de velocidade de Hernanes e Bueno para a volta também influencia. Tche Tche quase sempre sobe pra pegar a bola lá na frente, então fica longe também... 

Na bola parada, erros essencialmente de posicionamento. Alguns de passividade de ficar olhando a bola.

Volpi não vive grande fase. Bolas fáceis viraram problema e faltou domínio da área em alguns lances.  

Por fim, a saída de bola teve problemas com Igor Gomes em duas das três ocasiões. Posicionamento do corpo e erro técnico influenciam... 


Bom... Fico por aqui!  Podemos falar do ataque também em um outro momento, mas não é esse meu ponto. Se a defesa do São Paulo tivesse mantido o desempenho pré-pandemia o time estaria bem melhor posicionado. Afinal de contas, os 24 gols marcados em 15 jogos constituem uma marca muito boa, que fica um pouco abaixo do Inter (26 gols em 17 jogos), do Galo (31 gols em 16 jogos) e do Flamengo (26 gols em 18 jogos). Fica acima, por exemplo, de Palmeiras (22 gols em 17 jogos), Grêmio (20 gols em 18 jogos), Vasco (21 gols em 14 jogos). 




segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Insensíveis à doença, sensibilizados pela raiva

A quantidade de jogos em curto período de tempo e a situação atípica na qual ocorrem essas partidas fazem com que os fatos, episódios, narrativas e contextos se percam. Não dá tempo de pensar em nada. As coisas acontecem e imediatamente são substituídas por outras... Por isso quero fazer exatamente o contrário. Vamos respirar um pouco e lembrar... 

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Pronto. Vamos! 

Quarta-feira, Salvador, jogo da Copa do Brasil.  Ao final do primeiro tempo, o Vitória batia o Ceará por 2 a 1 depois de abrir dois gols de vantagem e ver o meia Vinícius descontar de pênalti. Tão logo o árbitro da partida apitou o término da primeira etapa, o presidente do Vitória, Paulo Carneiro, invade o campo de jogo e, dedo em riste e sem se importar com as imagens e áudios captados pela televisão, ameaça o jogador do Ceará: "Aqui você apanha, seu vagabundo. Comigo a história é outra. Sabe disso? Fica caladinho aí".  Um absurdo certo? Depende... Uma quantidade considerável de pessoas foi às redes sociais defender o mandatário. Segundo eles "esse é o futebol de verdade", "o futebol raiz". 

Sexta-feira, Curitiba. A diretoria do Athletico Paranaense comunica que decidiu demitir Dorival Júnior do cargo de técnico da equipe principal. O Furacão, desmontado no início do ano e campeão estadual, vinha de quatro jogos sem vitória; em três deles o treinador não pôde estar no banco de reservas da equipe. Estava doente. COVID-19... Nas redes sociais, celebração da torcida athleticana pela demissão. Regozijo pela saída do profissional! Exceto para aqueles que já se esmeraram em cravar: "não pode deixar esse Eduardo Barros como treinador!!!".  Não se sabe quem vai treinar o time daqui em diante, mas tanto faz... O importante é demitir. 

Sábado, Rio de Janeiro. Botafogo e Internacional se enfrentam no Estádio Nilton Santos. Depois de um começo ruim e de tomar um 2 a 0, o Botafogo melhora e reage, mas tem dois gols anulados pela arbitragem. Um de forma inquestionável. O outro bastante discutível. Após o apito final, o goleiro botafoguense Gatito Fernández vai até o monitor do VAR na beira do gramado e, com raiva das decisões, chuta o aparelho. O monitor cai no chão. O Inter não tem nada a ver com isso e chega a 15 pontos em seis jogos. É o líder do campeonato, embora muitos jornalistas e torcedores entendam que o técnico não presta porque não ganha Grenal. 

Sábado, Belo Horizonte. O Cruzeiro perde para o América Mineiro por 2 a 1 na sexta rodada do Brasileiro da Série B. É o quarto jogo seguido sem vitória da Raposa, que está em processo de reconstrução após a queda à segunda divisão e que trocou de técnico durante a paralisação do futebol pela pandemia do novo coronavírus. Após o jogo, o conselheiro do clube e investidor Pedro Lourenço dá uma entrevista a uma rádio dizendo que iria ligar para o presidente do Cruzeiro para pedir a demissão do treinador Enderson Moreira. Segundo o conselheiro, "esse lenga lenga não tem como continuar, não. Nós estamos perdendo jogo, o cara tira meio de campo, tira atacante. Como vai empatar se não tem atacante? Mandaria embora hoje. Não sobraria um".  Ele ainda adicionou: "Se tem um técnico, tem que ter ao menos um esquema de jogo. Não tenho nada contra o Enderson Moreira, só vi ele uma vez. Mas é muito fraco". 

Domingo, São Paulo. O tricolor paulista se prepara para enfrentar o Corinthians no estádio do Morumbi, em clássico válido pela sexta rodada do Brasileirão. O jogo é às onze horas da manhã, mas nem o horário e nem as restrições da pandemia do novo coronavírus impediram um grupo de torcedores são-paulinos de protestar contra o próprio time, então terceiro colocado no Brasileirão. Em jogo sem torcida, quem chegou com apoio ao Morumbi foi o Corinthians! 

Pronto. Podemos respirar de novo...

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...
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Podemos voltar à nossa rotina. 
Nada para ver aqui.

Foram apenas quatro dias normais no futebol brasileiro.  Sigamos! 

Insensíveis à doença e sensibilizados pela nossa raiva, construindo o esporte e o país.