sábado, 3 de dezembro de 2022

Dudzicopa 15 - Vibração e frieza

O décimo quarto dia de Copa do Mundo me fez refletir sobre a frieza e a vibração dentro de campo. Sim, porque vi Holanda e Argentina fazendo coisas diferentes hoje nas oitavas de final. A Holanda me passou frieza. A Argentina vibração.

É verdade que posso estar contaminado pelos estereótipos de latinidade e europeização, mas gostaria de explicar o que eu vi durante as classificações das duas às oitavas de final e aí vocês julgam. 

HOLANDA

Contra os Estados Unidos, a Holanda aguentou oito minutos dos americanos com a bola e aí iniciou uma troca de 20 passes, indo para trás, frente e lado até Dumfries cruzar e Depay fazer. Na sequência a Holanda viu os americanos tentarem furar a defesa laranja e depois pressionarem sem fazer o gol, até que em três toques Dumfries cruzou para Blind fazer 2 a 0. 

No segundo tempo o jogo estava completamente controlado pelos holandeses, até que Depay errou feio ao recuar uma bola. O escanteio decorrente resultou no gol de Wright e os americanos se animaram. Em meio ao turbilhão, Van Dijk e amigos pareciam saber exatamente o que fazer. Fiquei com a sensação que eles simplesmente decidiram aumentar de novo o ritmo e que o terceiro gol chegou naturalmente (e com contribuição norte-americana, claro). Na transmissão da CBN até brinquei com o Vinícius Moura que a Holanda era uma equipe clínica, mas também cínica. Achei uma boa porque a Holanda do futebol chato e do pragmatismo, hoje jogou bem e foi fria para resolver a partida no fim. 

ARGENTINA

Contra a Austrália, a Argentina tinha a bola e muitas dificuldades para entrar na defesa adversária. Por volta dos 33 minutos, no entanto, Messi se desentendeu com Behich aqui no lado direito do ataque argentino. Os dois se empurraram e encararam. A partir desse lance daqui do meu sofá, a milhares e milhares de quilômetros, Messi me pareceu mais vibrante na partida. Houve uma falta lateral, Messi pegou o rebote e matou a bola com categoria, passou para Mac Allister, que colocou para Otamendi, que ao não conseguir dominar, ajeitou para Messi enfiar o pé na bola no espaço que tinha. 

No segundo tempo a bobagem do goleiro Ryan e os esforços de Álvarez e De Paul resultaram na ampliação da vantagem. Ao mesmo tempo, porém, o clima de partida finalizada tirou os argentinos do jogo, enquanto o gol contra de Enzo Fernández após batida de Goodwin trouxe ares sauditas para a partida. Diferentemente da Holanda, a Argentina não parecia saber o que fazer, mas na reta final, depois de Lautaro errar mais um gol e os australianos se animarem, eu vi o seguinte: 


Messi simplesmente pegou a bola e falou que a partida era dele. Com ela nos pés, sem muito plano, sem os colegas entenderem muito bem, ele carregou, driblou, tabelou, chutou, errou... Messi, sempre acusado de ser frio, sentiu o que o jogo pedia. Junto com ele veio De Paul, na vibração do companheiro e tentando ajudá-lo a ficar com a bola. E no fim a energia deve ter ido ainda para Dibu Martínez, que salvou a Argentina cara a cara no chute do promissor Kuol. 

Na vibração da torcida, de Messi e de todos em campo, no final, sem muito plano e com um inaceitável descontrole, a Argentina agradável, dos 36 jogos de invencibilidade antes da Arábia, do futebol de tabelas e dribles, mas também das panes absurdas resolveu a partida. 

******

Pelo menos foi isso que eu vi. 

Mas de repente eu viajei e foi só mais um dia de times fracos parando em times mais fortes...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Dudzicopa 14 - Chances desperdiçadas

O décimo terceiro  dia de Copa do Mundo me fez pensar em oportunidades perdidas e em chances desperdiçadas... São quase onze horas da noite desta sexta-feira e eu sigo machucado pelo pênalti perdido pelo André Ayew contra o Uruguai. Nada contra a Celeste, muito pelo contrário, mas é que eu li bastante sobre o que representava esse jogo para Gana e para os africanos como um todo depois de 2010. 

Para gente aqui, aquela vitória uruguaia meio que ficou como a consagração de Luís Suárez e Loco Abreu. Mas para Gana e os africanos ficou um gosto de injustiça tremendo. Afinal aquela bola que iria entrar seria o gol que faria o continente ter pela primeira vez um representante entre os quatro melhores do mundo. Isso justamente no ano em que a Copa era disputada na África do Sul. 

E esse gol... Esse tão importante gol foi tirado pela mão de Suárez. Por uma falta dele que foi punida com expulsão e pênalti, mas que sempre vai carregar um quê de trapaça pela forma como foi feita e pelo resultado obtido com essa ação. 

Aliás, lendo matéria no site The Athletic, vi que, tanto quanto a derrota dessa maneira, machucou muito os ganeses a comemoração efusiva de Suárez.  Como se fosse um acinte celebrar essa trapaça. 

Bom, então vamos voltar pra hoje. André Ayew, único de Gana que estava em campo no "manotazo" de Luisito, pegou a bola para bater o pênalti e colocar os Black Stars na frente e em ótima situação para vencer e passar de fase.

Enquanto ele corria pra bola eu só pensava nisso tudo. Não sei se ele também... Dedé Ayew estava carregando um continente nas costas! E ficou pesado demais... A bola saiu fraca e Rochet fez a defesa. 




O que se seguiu dali em diante deve ter sido ainda mais dolorido. Em 10 minutos, dois gols do Uruguai, ambos com participação de Luis Suárez. Imagina o que Ayew pensava e sentia? O que os africanos sentiam... Eu nem consigo. Eles tinham perdido a chance de vingança. A chance de afundar o Uruguai e a chance de manter Gana no páreo para a Copa. 

Mas a vida e o futebol tem alguns temperos saborosos ou desagradáveis, dependendo do seu paladar. Gana não conseguiu vencer. Ayew não vingou ninguém. Mas a cena de Luís Suárez desesperado no banco e depois chateadíssimo deve ter sido bem saborosa para muita gente. 

Cena essa que só aconteceu porque o Uruguai foi pra Copa pensando no quanto podia errar antes de acertar... Errou uma, duas e aí acertou na terceira. Tarde demais. Enfrentamentos de alto nível necessitam precisão, eficácia e aquele instinto de matar o jogo enquanto se pode. Foi o que faltou pra Portugal e o que permitiu à Coreia ganhar hoje e eliminar a Celeste. Son ficou o jogo todo em busca de uma bola. Ela chegou no meio do campo e ele carregou, carregou e carregou até resolver. Não havia outra chance. 

Esse "espírito" foi o que sobrou para a Suíça contra a Sérvia, segundo li. Ainda não vi o jogo, mas marcar três gols em um confronto com essa carga emocional e de rivalidade denota essa vontade e capacidade.  Algo como "estamos aqui, vamos jogar contra a Sérvia e não vamos desperdiçar nada". 

Deve ser um pouco o feeling de Vincent Aboubakar hoje. Numa partida de entrega na marcação, uma bola caiu para ele no ataque. Contra o Brasil, o gigantesco Brasil, ele marcou. Não dava pra perder a chance de exibir a camisa - e de ser expulso na sequência. 

Não se pode deixar passar nada. 
Não dar nada de graça. 
É preciso aproveitar cada momento, chance e oportunidade. 


EDIT: adendo com a seleção da terceira rodada dos jogos que vi. Alguns faltaram aí. Vou assistir depois



Epassy

🇸🇳 Sabaly 🇦🇺 Souttar 🇺🇸 Ream 🇦🇺 Behich

🇺🇸 Mckennie 🇲🇽 Chávez

🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿 Rashford 🇺🇾 De Arrascaeta 🇸🇳 Sarr

🇯🇵 Doan




quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Dudzicopa 13 - Controle e insegurança

O décimo segundo dia de Copa do Mundo me fez pensar em ordem e caos e em controle e descontrole. Pela primeira vez não consegui ver todos os jogos do dia antes de vir aqui escrever... Isso se deve aos compromissos da vida real. Nesses dias estava vendo dois jogos ao mesmo tempo e depois voltava para rever pontos que ficaram meio nebulosos para mim. Hoje, no entanto, não consegui nem ver nada de Marrocos e Canadá e de Alemanha e Costa Rica. 

De um lado é uma justificativa para que o tema de hoje verse sobre Bélgica e Croácia e Espanha e Japão, mas de outro me parece que também é um pano de fundo para a discussão de controle e descontrole. 

Eu sou uma dessas pessoas que adora controlar e tentar controlar tudo. Hoje eu não consegui manter as coisas no controle. Foi mais do que eu pude administrar e por isso não arranjei tempo para ver os jogos. 

Vocês já devem saber, mas no fundo quem quer muito controle sobre as coisas, na verdade tem muita insegurança com tudo. É meu caso.

E acho que é o caso da Espanha também! 



Pois é. Está lá tudo sob controle. O modelo de jogo é baseado na troca de passes para se manter juntos, com a bola e evitar que o adversário tenha a bola. A execução é perfeita contra o Japão. O gol foi feito e nenhum adversário sequer chegou perto do goleiro.

O resultado está construído. Agora é só seguir fazendo o que estava sendo feito. Controlando...  Sabendo exatamente o que vai acontecer aqui e ali. Sabendo que não import....EI! EI! PERAÊ! COMO ASSIM ELES VIERAM APERTAR A GENTE AQUI? 

*GOL DE RITSU DOAN*

Que coisa! Não podemos nos descuidar. Precisamos de novo control.... NÃO! NÃO! SAIU! SAIU A BOLA! SAIU! 

*GOL DE TANAKA*

E assim a Espanha tomou 2 gols em 5 minutos. As coisas saíram um pouco do script e a nave foi de bico, como dizia meu guru Eduardo Vetorazzo Barbosa, o Belezinha. E pra voltar? Não volta mais... 

Utilizando essa comparação com a minha pessoa e projetando os meus medos para essa analogia, tendo a dizer que no fundo o estilo de jogo da Espanha não é de controle absoluto e  sim de insegurança absurda. Esse time não sabe o que fazer se não estiver com as rédeas da situação. O goleiro inclusive joga porque é bom com os pés e não pode receber uma finalização a gol porque não é bom para isso. Esse time da Espanha não sobrevive no caos. Nem mesmo por 5 minutinhos... E como é bom para gerar caos o Japão hein? Doan, Mitoma, Junya Ito e a bagunça está feita! Que ironia aos estereótipos!


Sobre Bélgica e Croácia... A Bélgica nessa Copa do Mundo foi tão ruim e intragável que eu até diria que ela é a versão de baixo orçamento da Espanha. Um time que tenta controle por meio de ataques posicionais e toque de bola, mas que na prática só sabe distanciar seus jogadores, sem saber os movimentos e como fazer a bola chegar nas posições para desequilibrar o adversário e consequentemente vencer jogos. É uma total inversão daquele time de 2018, que era rápido nas transições, bom na bola parada e que tinha argumentos tanto para dinamizar, quanto para acalmar uma partida de futebol.

Os gols que Lukaku perdeu hoje foram símbolo desse momento terrível da Bélgica. Nada a ver com 2018... E olha que o centroavante ainda gerou algo que Mertens sequer conseguiu: um pouquinho de caos e desequilíbrio para tentar ganhar. 

A Bélgica fica e a Croácia avança! A Croácia do tempo e do ritmo de seus três meiocampistas: Kovacic, Brozovic e Modric. Qualquer ideia de seguir adiante no Mundial precisa passar por esses três e o controle que eles têm do tempo e dos espaços no jogo. Falta um pouco de poder de fogo na frente e, Gvardiol à parte, há dúvidas sobre a defesa, mas me parece um time redondo dentro das suas possibilidades. Acho que na situação da Espanha hoje a Croácia se sairia melhor... Mas isso é só chute. 

Deixa eu ir que o gato está miando e eu não estou conseguindo controlá-lo! 






quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Dudzicopa 12 - Pra quê Polônia?

O décimo primeiro dia de Copa do Mundo me fez pensar no que é o esporte e porque nos envolvemos com ele. 

Tenho convicção de que o esporte não é feito para times como a seleção polonesa de futebol e estou certo de que ninguém se envolveria e se interessaria pela modalidade se todos adotassem a postura do time dirigido por Czeslaw Michniewicz. 





Diante da Argentina os poloneses fizeram uma demonstração ímpar de antidesportividade.
No maior evento esportivo do planeta, com outras equipes dependendo de seu jogo, com seus principais jogadores em campo, com todos os 11 em condições físicas e técnicas, os poloneses decidiram não jogar. 

Não estou falando de "se defender com muita gente", "recuar as linhas" ou "ser inteligente para jogar no erro do adversário". Estou falando de um time que não quis jogar o jogo. De novo: a Polônia não quis jogar o jogo. Ela desistiu de jogar. Estava perdendo e decidiu que não tentaria mais ganhar. Foi isso o que aconteceu.

Por isso considero antidesportivo o que aconteceu. Porque para existir esse esporte é preciso que haja disputa. Que haja participantes interessados em vencer. Isso não aconteceu hoje. A Polônia perdendo por 2 a 0 decidiu aceitar. Decidiu deixar a bola com o adversário e esperar o tempo passar. Não tentou ganhar. Sequer esboçou reação. Aceitou que seria derrotada. É permitido? Sem dúvida. Mas está em consonância com o que se espera da prática esportiva? De nenhuma forma. Mesmo que a classificação estivesse ao alcance ao fazer isso. 

"Ah, mas isso é irrelevante, o importante é ganhar". Eu não acho. Ganhar é algo ínfimo perto da magnitude do esporte. 

Nesse sentido, compartilho com vocês algo que me fez organizar melhor os pensamentos sobre o tema. São trechos do livro Homo Ludens, do historiador e linguista holandês Johann Huizinga. Nele o autor se propõe a traçar uma história da humanidade mediante o aspecto lúdico.

Huizinga sustenta que seria impossível a existência da civilização sem elementos lúdicos, uma vez que esses carregam simbolismos que permitem aos seres humanos saírem da lógica apenas da sobrevivência. Nessa abordagem, quase tudo que não é sobrevivência acaba caindo no lúdico, uma vez que extrapola o domínio da necessidade. Assim, Huizinga trata em cada capítulo conceitos de Jogo (atividade que existe apenas com a ludicidade da relação entre pessoas)  na política, justiça, poesia, relacionamentos etc,  


Diz ele sobre o jogo: 

"Enumeremos uma vez mais as características que consideramos próprias do jogo. É uma atividade que se processa dentro de certos limites temporais e espaciais, segundo uma determinada ordem e um dado número de regras livremente aceitas, e fora da esfera da necessidade ou da utilidade material. O ambiente em que ele se desenrola é de arrebatamento e entusiasmo, e torna--se sagrado ou festivo de acordo com a circunstância. A ação acompanhada por um sentimento de exaltação e tensão, e seguida por um estado de alegria e de distensão."

Ainda sobre o jogo, Huizinga diz que: 

"A vida social reveste-se de formas supra biológicas, que lhe conferem uma dignidade superior sob a forma de jogo, e é através deste último que a sociedade exprime sua interpretação da vida e do mundo. Não queremos com isso dizer que o jogo se transforma em cultura, e sim que em suas fases mais primitivas a cultura possui um caráter lúdico, que ela se processa segundo as formas e o ambiente do jogo"
O esporte é desnecessário e por isso pode ser grandioso! Simbólico, construtor de novas realidades, dignificante, ideológico, reflexivo, filosófico... Nessa noção, o que a Polônia fez é inadmissível para mim. E olha que sou neto de um polonês! 

Para mim é também inadmissível porque o time não é ruim em valores individuais. É só que o treinador não quer jogar. Quer ir se agarrando em contas, números e avanços que na verdade significam muito pouco dentro do que poderia ser a experiência de uma Copa do Mundo para um povo, para os amantes do esporte e para as pessoas em geral. 

Mas enfim. Eu sou meio estranho mesmo.
Meio bobo.
Sonhador.

Está lá a Polônia. Nas oitavas de final!

Eu só pergunto... Pra quê? 

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Dudzicopa 11 - Qual o lugar da cultura futebolística de um país na Copa?

O décimo dia de Copa do Mundo me fez pensar em culturas futebolísticas e como elas se manifestam ou deixam de se manifestar no Mundial. De antemão já digo que não vou conseguir abarcar a complexidade do tema (tenho impressão que toda a hora eu falo isso, mas c'est la vie). No entanto, quero oferecer tostões de reflexão. 

Não estou falando de "japoneses rápidos e organizados", "de africanos irresponsáveis", da "frieza nórdica" ou de outros estereótipos que têm um ou os dois pés no preconceito. Estou falando de modelo de jogo, características das equipes e que tipo de jogador é eleito ou deixa de ser para disputar o Mundial. 

Esse tema está sempre presente para mim quando se discute a seleção do Tite. O time é excelente, o coletivo é esplêndido e os jogadores extremamente técnicos, mas não dá para deixar de notar que a predileção pelo ataque posicional é uma ruptura com o Joga Bonito da história da seleção brasileira. Jogadores distantes, que esperam a bola no pé... Pontas abertos, segurando a linha lateral... Poucas aproximações e muitas inversões... Funciona, mas não tem nada a ver com os títulos e 82. Deveria ter? Não sei. Talvez... É a cultura de um país refletida num jogo. Ao mesmo tempo tem gente que vai dizer que o mais importante é vencer e tudo bem também. E outros que vão apontar que no mundo globalizado todo mundo joga como quiser ou até igual a todo mundo. Todos pontos válidos. Mas quero discutir um pouco isso falando sobre os times que jogaram nesta terça-feira. 

A Holanda que se classifica em primeiro no grupo A me parece que tem pouco da escola holandesa. Sim, alguns aspectos mais posicionais estão por lá, mas os encaixes de marcação, a linha de cinco muito rígida, o recuo excessivo, a ausência de pontas e a característica dos atletas são muito diferentes da Laranja Mecânica ou mesmo de times mais recentes, como os de 88, 94 e 98. Deveria ser diferente? Não sei. Eu gostaria que fosse... Poderia ser até um Ajax 95, dirigido pelo próprio Van Gaal... 


Do outro lado a seleção do Catar teve que criar um jeito de jogar pra não fazer tão feio na Copa. Até acho que o vexame não foi tão grande, haja vista de onde partiu e onde está a seleção nacional, forjada pela Academia Aspire e seus muito espanhóis. Talvez daqui uns 16 anos a imprensa do Catar (se tiver liberdade para isso) pergunte se os cataris deveriam romper com a tradição ou abraçar o estilo de jogo consagrado por Félix Sánchez... 

No caso de Senegal há um retorno com Aliou Cissé como comandante. Depois de anos com europeus tentando a rigidez, as seleções africanas foram ao Catar com comandantes do próprio continente e, me parece, um certo entendimento da necessidade de haver casamento entre ordem e liberdade, haja visto todo o talento que têm. A escola senegalesa é essa? 

E a equatoriana, qual é? Acho que é a sul-americana, do drible, engano e encanto, mas a quantidade de jogadores formados no Independiente del Valle e as raízes espanholas do modelo de jogo do clube fazem a gente pensar para onde vai e qual o modelo a ser seguido doravante. 

E as seleções do grupo B? País de Gales parece meio imune à globalização no que se refere à seleção. Acho que tem muito a ver com os atletas que atuam na Championship e em times menores da Premier League. Nenhum problema quanto a isso. Inclusive acho que se fosse melhor no kick and rush 4-4-2 e colocasse dois grandões na frente, talvez tivesse mais chances. 

E isso me leva aos ingleses. Há tanto talento local nesse momento que a escola inglesa está sendo transformada.  Já não é mais o caso de 4-4-2 com double six (Gerrard e Lampard, Scholes e Butt, Barnes, Ince e outros), um centroavante e um segundo atacante. Agora é a Inglaterra do controle, dos pontas agudos e dos zagueiros que jogam. Está errado ir por aí? Deveriam manter o estilo inglês? Acho que não, desde que eles sejam capazes ou acreditem serem capazes de um dia superar espanhóis e brasileiros nesse tipo de jogo que querem. Ou talvez pudessem pensar em um jogo mais vertical à la Premier League...

Do Irã me falta conhecimento para falar, mas me parece que a escola Queiroz pode ser o futuro da equipe nacional. O português foi treinador em 3 das 6 Copas disputadas pelo Team Meli e me parece que com mais tempo neste ciclo poderia ter levado o time ao mata-mata.

E pra fechar, falo dos Estados Unidos. Qual é a escola de futebol dos Estados Unidos? E qual era? Era a cópia inglesa? Uma coisa à mexicana e Caribe? Eu não sei. Mas já falei aqui que talvez o futuro seja o modelo Red Bull, personificado em Tyler Adams, que faz grande Copa do Mundo. O jovem de 23 anos passou por New York Red Bulls, Red Bull Leipzig e Leeds United, onde é treinado por Jesse Marsch, que treinou times da empresa e que tem tudo para assumir o Team America para 2026. Jogadores rápidos, pressionando o espaço e imprimindo velocidade. Acho que se adapta bem a esse grupo. Talvez se adapte bem à paixão americana pelos outros esportes. Um futebol NBA, de transições rápidas e DE-FEN-CE, DE-FEN-CE! Será?

Já estou falando muita bobagem. Até amanhã! 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Dudzicopa 10 - Um jogo de momentos e diferenças no placar

O nono dia da Copa do Mundo do Catar me fez pensar em quantos minutos ofensivos de qualidade um time precisa para ganhar um jogo. Porque me parece que Camarões e Gana precisaram de pouquíssimos trechos das respectivas partidas para saírem com grandes resultados, enquanto Suíça e Uruguai vão lamentar não terem aproveitado melhor os períodos em que chegaram perto do gol rival. 


Vou recorrer ao site Sofascore para me ajudar na visualização disso que estou falando. Começo com Camarões e Sérvia: 


O Sofascore se utiliza de métricas combinadas para criar um algoritmo capaz de mostrar os momentos de pressão de um time em cima do outro durante o jogo. As barrinhas verdes são momentos ofensivos de Camarões e as azuis da Sérvia nessa imagem. Me parece que nesse caso o jogo está muito bem traduzido. Um começo forte dos sérvios, domínio dividido, o gol de Castelletto e, no finzinho, dois gols sérvios meio do nada. No segundo tempo o domínio da Sérvia deveria significar a vitória por 3 a 1 ou mais, mas Camarões em dois lances empatou e depois ninguém foi tão melhor assim. Em suma... Em 97 minutos (mais ou menos), Camarões precisou de quê? Quinze minutos bons (ofensivamente) para sair com a mesma pontuação da Sérvia? 

O duelo entre Gana e Coreia do Sul também seguiu por aí:


 
Começo dos sul-coreanos com boas jogadas, envolvendo e ficando perto de abrir o placar, até que Gana encontra um gol de bola parada e leva o jogo para o campo do time asiático, fazendo o segundo gol pouco depois. No segundo tempo, pressão dos sul-coreanos que resulta em dois gols e o empate, um lance ganense e 3 a 2 no placar e um final de pressão e muitos e muitos cruzamentos da Coreia do Sul (46) sem chegar ao empate. Em 111 minutos, Gana foi superior (ofensivamente) por 20. 


Nos outros dois jogos me parece que os melhores times venceram de maneira justa, mas creio que vale pontuar alguns momentos que poderiam - a exemplo dos duelos dos africanos de hoje - terem determinado outros resultados nesta partida. 


No jogo do Brasil esses dois períodos ali no segundo tempo (barras azuis) eram os que a Suíça havia esperado o jogo todo, mas as finalizações não foram boas. 

Nessa conta meio improvisada e subjetiva eu diria que o Brasil foi melhor (ofensivamente) em 90 dos 96 minutos disputados. 

Já no caso de Uruguai e Portugal a coisa foi diferente. Considero que Portugal foi a melhor equipe, mas os minutos que se seguiram ao gol de Bruno Fernandes foram todos do Uruguai (barrinhas azuis). Faltou uma pontaria um pouquinho melhor para mudar os rumos do jogo! 


Na minha estatística subjetiva, seriam uns 65 minutos de superioridade portuguesa e uns 45 uruguaia nos 111 minutos jogados. 

Não busco afirmar nem provar nada com tudo isso. Quero apenas refletir sobre aquela pergunta que deixei: quantos minutos bons um time precisa em um jogo para ganhar? 

Às vezes dez minutos bastam (Camarões). Às vezes você precisa de 90 (Brasil). Outras os seus 45 (Uruguai) só vêm por causa da necessidade de responder aos 65 do adversário (Portugal), enquanto em outras 25 bons viram 20 bons do adversário porque você se abalou no jogo (Coreia). 

No fundo me parece que a ideia é: quem joga melhor por mais tempo tem mais chances de se impor ao adversário, seja com posse, transições ou bola parada. Quem se impõe em relação ao adversário por mais tempo tem mais chances de transformar superioridade em gols.

No entanto não dá pra fugir do fato de que isso não é uma regra e que cinco minutos fulminantes podem decidir uma Copa. Mesmo que isso pareça injusto, essa é a natureza do jogo... O desafio é balancear ponderações, avaliações e observações com o puro e simples resultadismo. 


Minha seleção da 2ª rodada da fase de grupos 

🇵🇱 Szczesny
🇷🇸 Zivkovic 🇦🇺 Souttar 🇨🇭Akanji 🇫🇷T Hernández
🇸🇦 Kanno
🇬🇭 Kudus 🇩🇪 Musiala 🇫🇷 Griezmann 🇵🇹 B. Fernandes 🇫🇷 Mbappé



domingo, 27 de novembro de 2022

Dudzicopa 09 - O futebol dos camisas 9

O oitavo dia da Copa do Mundo me lembrou o papel dos centroavantes no futebol de alto nível.

Espanha e Alemanha fizeram um grande jogo de futebol. Um duelo digno de Copa do Mundo. Mas também um duelo de duas campeãs mundiais que foram a campo sem centroavantes! Ou pelo menos sem centroavantes típicos. Asensio repetiu o papel de 9 de mobilidade da estreia pela Fúria, enquanto Thomas Müller foi o nove de falsa mobilidade pelo lado alemão. 

Os espanhóis, fiéis à sua ideia de mover o adversário por meio da posse de bola, foram mais bem sucedidos no primeiro tempo. Faltava, no entanto, aproveitar a profundidade criada por esses passes e movimentações dos demais jogadores. Olmo estava conseguindo, mas não o bastante em zonas perigosas, enquanto Asensio e Ferrán Torres estavam deixando Luis Enrique na mão. Aos 9 do segundo tempo Morata entrou para jogar de centroavante. Aos 15 a bola de Busquets chegou a Olmo, que rapidamente serviu Alba, que cruzou na linha da pequena área para Morata. A flecha na hora certa, o alvo atingido! Nem foi tanto a capacidade de finalizar e sim de ter o timing certo da corrida. Isso também importa muito em um centroavante.

Do outro lado Flick insistiu mais um pouco com Müller. Não sei se a ideia era ele recuar para servir Musiala e Gnabry em profundidade quando a Alemanha tivesse transições ou se ele queria que Müller sustentasse e escorasse a bola na frente. Talvez fosse tão somente o Raumdeuter de outrora o procurado por Flick, mas esse acho que já ficou há muito no passado... Quando entrou Fülkrig as coisas começaram a acontecer. 




O grandalhão começou a dar trabalho para Busquets, Laporte e Rodri por meio de suas disputas aéreas e na área. Isso, me parece, empurrou mais para trás a Espanha, que já estava mais cautelosa com as arrancadas de Sané. Aos 35 Fülkrig recebeu e chutou na mão de Busquets no que aqui no Brasil seria pênalti e aos 37 Fülkrig correu na hora certa para receber de Musiala e estufar as redes. 

Fico pensando aqui em Klinsmann, Bierhoff, Klose, Gómez e até em Jancker e em como Fülkrig tende a ajudar mais esse time do que os técnicos Havertz, Müller e Moukouko nesse momento.

Vi algo parecido com esses grandões no En-Nesyri do Marrocos. Confesso que conheço menos do que gostaria sobre esse jogador, mas me chamou a atenção as vezes em que ele recebeu de costas para o gol e deu sequência nas jogadas. Às vezes é disso que um time precisa: gira a bola, sustenta, passa, espera a equipe avançar... 

Bom.. Há muito tempo eu tenho um fraco por centroavantões. Eu adoro Romelu Lukaku porque ele é muito técnico, muito rápido e muito alto e forte. O problema é que sem ele em forma a Bélgica recorre a Batshuayi. E olha que eu até gosto do Batsman... Desde a época em que ele era reserva do Gignac no Marseille do Bielsa! A questão é que ele em si está muito longe de Romelu... A frustração de De Bruyne com ele chama a atenção. Assim como chama a atenção que Batshuayi até tem a ruptura em profundidade, mas não o timing, nem a técnica apurada e nem o feeling para o mais alto nível. Não sei se a Bélgica iria melhor com outro ali, mas sei que um time tão moroso e distante precisaria de um centroavante bom para dar dinâmica ao jogo. 

Me parece que foi um pouco isso que Takuma Asano deu ao Japão nos dois jogos em que ele entrou. Nem tanto presença de área, pois sequer ele é nove, mas sim a bagunça na área. Vem pra cá, faz a tabela, recebe e chuta. Kramaric também fez isso pela Croácia, mas aí se mexendo bastante e tendo espaço, pois os canadenses jogam e deixam jogar. 


Dinâmica, timing, parede, profundidade, empurrar o adversário para trás, pivô... Uma série de contribuições que os centroavantes podem dar para além dos gols.