quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Dudzicopa 06 - O tamanho do craque

O quinto dia da Copa do Catar me fez pensar nos craques. Nos jogadores referência das seleções nacionais... Qual o tamanho eles têm nos seus países e qual deveriam ter?

A Suíça já chegou a ser a equipe de Shaqiri. Mas isso era quando ele estava no Bayern de Munique e em boa fase. Hoje, quando o ocaso bate à porta do ponta diminuto, os suíços têm seus destaques como Xhaka, Freuler, Sommer, Akanji e o próprio Embolo, mas nenhum deles mereceria ter o time montado em função deles. 

Em Camarões hoje há alguns bons jogadores no futebol europeu. Eu, do alto da minha ignorância e achismo, penso que o time que já foi de Roger Millar e Eto'o, hoje deveria ser montado em função de Zambo Anguissa. O meia do Napoli, porém, me parece que tem menos protagonismo do que deveria nesse time. São poucas chegadas à frente, é muita construção atrás... 

Os uruguaios que já foram de Forlán em 2010 e eram de Cavani e Suárez em 14 e 18, hoje parecem meio perdidos entre os dois mundos. O potencial da equipe está em Bentancur, Valverde, De Arrascaeta, Ugarte e outros meiocampistas, mas a equipe segue com Godín e Cáceres trazendo o time para trás,  enquanto tenta encaixar Darwin com os dois mais experientes. É difícil tirar do trono quem ostenta a coroa há tanto tempo, mas isso faz com que a Celeste atualmente pareça menos intensa do que deveria e mais lenta do que gostaria. 

No caso da Coreia do Sul, Heung Min Son é a grande estrela da companhia, mas nas vezes em que vi os Bento Boys tive a impressão de que ele é mais coletivo do que deveria. Pior... Como a Coreia tem posse de bola em muitos momentos, o craque do time fica preso na marcação e não pode usar as transições em alta velocidade que fizeram dele quem ele é... Talvez fosse o caso de montar um time com ele de segundo atacante, livre para buscar os espaços no campo. 

E o que falar de Portugal com Cristiano Ronaldo? De alguma forma ele tem que estar por lá! E lá esteve na vitória contra Gana. Ninguém nega o potencial de finalização do homem mesmo aos 37 anos, mas o que seria desse time com mais apoios e movimentação na frente? O mais irônico é lembrar que Portugal passou décadas buscando um centroavante (alôu Pauleta) e agora que tem um dos melhores finalizadores da história do futebol, este tonto está a falar sobre dinâmica ofensiva para Bernardo, Bruno, Leão e Félix... 




Já em Gana eu lembro com carinho do meio de campo de Essien, Appiah e Muntari! Não havia um craque líder de uma geração, mas um setor do campo muito bem estruturado com atletas do futebol italiano.  Hoje vi um time preso entre estrutura e jogadores. Tem bons atacantes, mas segura o adversário antes de tentar algo porque senão não compete... 

Foi mais ou menos o que fez a Sérvia. Talvez em um futuro breve digamos que é o time do Vlahovic, um futuro craque. Hoje, contra o Brasil, no entanto, foi a equipe do marca forte e não dos talentos ofensivos que poderia ser. Ainda aguardo o Sergei Milenkovic-Savic aparecer para capitanear o time. Não aconteceu em 18 e nem hoje. 

Por fim o Brasil do Neymar me causa reflexões... De um lado é muito bom ver a seleção sem depender tanto do seu camisa 10. Mas de outro, a falta de protagonismo de Neymar significa que ele é a mais técnica engrenagem de um time e não o cara que faz o impossível acontecer. O tema me faz refletir porque normalmente sou do coletivo, mas confesso que ando meio romântico da bola e ver um Messi e um Neymar fazendo o impossível também me atrai... Nesse momento, porém, o Brasil que já foi de Bebeto e Romário, dos 3 erres e do Quadrado Mágico parece caminhar para ser o Brasil dos pontinhas! 

E olha que já fomos o Brasil do Zagalo por dentro, Rivelino falso ponta, Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico e dos alas Cafu e Roberto Carlos hein?! 

Termino aqui colocando a minha seleção da primeira rodada da Copa

                                        🇯🇵 Gonda

Laryea 🇫🇷 Upamecano 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿Maguire 🇫🇷 T.Hernández

🇨🇦 Eustáquio 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿 Bellingham

🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿 Saka 🇩🇪 Musiala 🇧🇷 Vinícius Jr

🇪🇨 Valencia

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Dudzicopa 05 - Dimensões do campo e falsas simetrias

 O quarto dia da Copa do Mundo do Catar me fez pensar em comprimento, largura, profundidade, simetrias e assimetrias! Não, não confundi os jogos da tevê com a reprise do Telecurso 2000! O fato é que o jogo de futebol está intrinsicamente ligado à noção de espaço e em como ocupá-lo.

Vimos no Croácia e Marrocos que Modric, Kovacic e Brozovic são ótimos, mas não aqui na defesa e sim lá no ataque! O Marrocos condicionou o local do campo em que os três recebiam a bola e os croatas sofreram. 


Em Alemanha e Japão observamos vários conceitos interessantes relativos ao espaço. Primeiro a Alemanha usando uma formação assimétrica com a bola para levar vantagem. No papel era um 4-2-3-1, mas na prática o lateral-direito Süle (15) ficava na base da jogada junto aos zagueiros Rudiger (2) e Schlotterbeck (23), enquanto o lateral-esquerdo Raum (3) avançava e se unia aos atacantes Musiala (14), que pendia da esquerda para o meio (onde se sente muito mais à vontade), Muller (13), Gnabry (10) e Havertz (7). Atrás deles Gundogan (21) e Kimmich (6) para armar. Bem assimétrico como mostra o mapa de calor do Sofascore:


A assimetria de uma formação em momento ofensivo não é questão estética e sim algo motivado para gerar desequilíbrios. Como o Japão iniciou em 4-2-3-1 com a primeira linha mais "estreita", protegendo os limites da própria área, e o ponta por aquele lado, Junja Ito, ainda tinha que dar conta do lateral-esquerdo/zagueiro Schlotterbeck, o lateral/ala Raum tinha espaço no lado do campo. Foi com ele que a Alemanha atacou primordialmente e foi ele que sofreu o pênalti. 

Voltando às noções de geometria, dá pra dizer que o Japão não conseguia com quatro jogadores dar conta de todo a largura do campo.  Por isso a alteração na metade do jogo foi crucial para os japoneses. Com uma linha de 5 e não mais com quatro, os Samurais conseguiram ocupar melhor toda a extensão horizontal do gramado. Mas isso os fez perder a extensão vertical... Mais gente dos lados, menos gente por dentro e a Alemanha chegou muito!

Como falhou nas finalizações - Gonda foi excelente -, Die Mannschaft deu a chance de o Japão virar o jogo, em um momento no qual a linha de cinco asiática tinha dois atacantes, um lateral e dois zagueiros. Aliás... O segundo gol japonês é uma prova de dificuldade alemã para proteger o comprimento/profundidade do campo/o costado da zaga, que foi exposto pelo lançamento rápido de Itakura para Asano. 

Bom, mas se a Alemanha foi uma assimetria e o Japão se encontrou na largura do campo, o que dizer da Espanha contra a Costa Rica? 

Irritantemente simétrico é o que me vem à mente! 


Esse mapa de passes do site The Athletic mostra ainda melhor a sinergia, simetria e distâncias quase iguais de todos os jogadores


É a síntese do jogo de posição espanhol. Contra uma Costa Rica que "tapou", mas não marcou, os comandados de Luis Enrique deitaram e rolaram nos intervalos entre jogadores e nas zonas esvaziadas do campo pela movimentação dos oitos, pontas e nove de mobilidade. Aqui, para além das noções de simétrico e assimétrico, vale pensar como o princípio de "movemos a bola para mover o adversário" é belíssimo quando funciona dessa forma. Na prática a Espanha é que decidiu quanto media o campo em cada momento. Evidentemente que faltou muita coisa para os Ticos e uma marcação individual talvez tivesse se dado melhor contra os espanhóis. Aí a referência não seria mais o espaço criado pela Espanha e sim a capacidade/tenacidade/agressividade individual. 

Para fechar... Canadá e Bélgica decidiram esvaziar o meio do campo, mostrando que, mesmo podendo, alguns times não querem compactação. É uma assimetria na altura do campo por assim dizer... Bloco da defesa e bloco do ataque!

Com isso os canadenses foram superiores, condicionaram a Bélgica e ainda se aproveitaram da velocidade, inversão e atrevimento da turma da frente. Faltou gol! Gol que a Bélgica conseguiu de forma similar a Takuma Asano contra a Alemanha: lançamento em profundidade, mexendo com a altura/profundidade do adversário. Talvez o goleiro Borjan pudesse ter encurtado mais para Batshuayi.

Talvez eu deva dormir um pouco...

Amanhã tem mais! 





terça-feira, 22 de novembro de 2022

Dudzicopa 04 - A coragem de ser quem se é

O terceiro dia da Copa do Mundo para mim ficou marcado pelas equipes corajosas e de personalidade. Foi muito corajosa a Arábia Saudita para subir linhas e acreditar na ideia de seu treinador contra a poderosíssima Argentina. Se Catar e Irã se dobraram perante o domínio dos adversários, os sauditas mantiveram-se firmes no plano de jogo. Mesmo sofrendo três gols (depois anulados) a equipe do técnico Hervé Renard continuou arriscando e apostando que o sistema do VAR da Fifa seguiria funcionando e que milímetros e milésimos de sincronia e coragem manteriam a equipe no jogo. 


Ao mesmo tempo em que se enchiam de autoconfiança, os sauditas mexiam com os argentinos, que não foram fiéis ao que são. Se na sequência de 36 jogos de invencibilidade a "Scaloneta" foi pausa, troca de passes, aproximação e gambeta, diante da Arábia Saudita os argentinos foram ligação direta e cruzamento. Foram condicionados pelo adversário e deixaram de ser quem são. Naufragaram e perderam por 2 a 1. 

Vi algo parecido aos sauditas na conduta da Tunísia diante da Dinamarca. Não conheço o suficiente da seleção tunisiana, mas vi a coragem de tentar empurrar pra trás uma seleção melhor, que gosta de envolver e que tem muita qualidade no meio do campo. O tiro poderia sair pela culatra, mas a intensidade de Laidouni e Shkhiri e a dedicação de Jebali na frente garantiram que a equipe equilibrasse as ações e até tivesse mais chances que os europeus. No segundo tempo, porém, a Dinamarca conseguiu quebrar mais por dentro, sendo também mais ela por assim dizer. Aí apareceu o goleiro Dahmen para garantir o 0 a 0.

O outro 0 a 0 da terça também me fez pensar.... Mas nesse caso hoje Polônia e México são isso aí mesmo. Times conservadores. Receosos. Especulando... A Polônia me gera mais revolta, pois a seleção europeia conta com um goleiro de alto nível e um dos melhores centroavantes do mundo como referências, além de jovens mais técnicos como Kaminski, Zalewski e outros que eu não conheço, mas que devem existir pelos campos do leste europeu. A ideia da Polônia, no entanto, é não se comprometer. Foi assim em 2018 e tem tudo para ser assim novamente. Cabe perguntar de que serve disputar a Copa do Mundo se é para não jogar e não tentar... Nesse sentido também fiquei pensando hoje nesse cara aqui:



Ele é Matheusz Klich. Meia polônes de 32 anos, que joga no Leeds e que é um dos meus jogadores favoritos pelo que representa para o clube, pelo estilo sardônico em campo e pelos gostos peculiares que ele tem (hip-hop polonês, grafite, golfe). Ele não foi chamado para a Copa depois de ter feito parte de todo o ciclo da Polônia nas Eliminatórias. O estilo de jogo dele é de associação, de tabela e de trazer os outros pra jogar. Ele não é um 10 e não é um 8... Ele é Klich. E por ser Klich perdeu espaço no Leeds com Jesse Marsch e perdeu espaço na Polônia. Azar o deles digo eu! 

EU que estou tentando ser mais o que quero ser. 
Que estou buscando essa coragem...

E que não vou falar da França porque cansei.

Até!

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Dudzicopa 03 - Os jovens e a profundidade no campo

 Às 22h39 desta segunda-feira os jogos já estão meio bagunçados na minha cabeça, mas vou tentar falar um pouquinho de cada um. 

Me parece que um ponto que liga os três jogos de hoje - e a bem da verdade com o de ontem também - é a juventude dos atletas que tiveram atuações destacadas nessas partidas. 




Se no domingo Moisés Caicedo (21), Estupiñan (24), Preciado (24) e Jhegson Méndez (25) ajudaram Enner Valencia a bater o Catar, a segunda começou com Bellingham (19), Saka (21) e Rice (23) dominando e desequilibrando o jogo contra uma pálida seleção iraniana. A equipe asiática teve muitos problemas para se posicionar de maneira compacta, sendo atraída com facilidade pelas movimentações dos meiocampistas ingleses e ficando desorganizada pelas próprias tentativas de encaixar a marcação de maneira individual no English Team.  

Se havia expectativa de duas linhas de 5 ou uma de 6 imitando um jogo de handball, na prática os iranianos foram envolvidos por combinações inglesas e batidos ainda pela fisicalidade do jogo aéreo de Maguire e de corpo de Harry Kane. 

Um ponto importante que me chamou a atenção quando ainda estávamos tendo um jogo equilibrado foi a quantidade de vezes que os ingleses conseguiram chegar ao fundo para cruzar em vantagem. Cruzar do fundo normalmente é melhor que da intermediária! Quando ganha a profundidade, você faz o adversário correr para trás e o obriga a tentar tirar de lado o cruzamento que você faz. 

Mas a beleza do futebol é que não há verdades absolutas, de forma que logo depois de falar sobre as vantagens de cruzar do fundo eu preciso observar que o primeiro gol da Holanda contra Senegal foi feito com cruzamento da intermediária e um timing perfeito de infiltração do atacante. No caso estou falando dos dois jovens que foram oásis de qualidade técnica e boas decisões na equipe laranja: o lançador De Jong (25) e o cabeceador Gakpo (23). Os jovens holandeses se destacaram em uma equipe bem organizada e distribuída, mas com pouca fluidez com a bola. Queria ressaltar que Mendy não foi excelente no lance, mas me parece que o gol 1 da Holanda tem muito dessa sincronia de movimentos e pouco de falha do goleiro, que tinha que sair ali, mas que deveria subir mais que Gakpo.

A impressão que o jogo me deixa, no entanto, é de que Senegal merecia mais pela pegada sem a bola e velocidade para transitar e buscar jogo mais direto. Gostei de Ismaila Sarr (24) e de Boulayé Dia. 

Para finalizar o dia, Tyler Adams (23), Musah (19), Pulisic (24) e Weah (22) nos deleitaram com a intensidade, velocidade e objetividade no primeiro tempo da partida contra País de Gales. Tímidos no primeiro tempo, os galeses melhoraram demais com o grandalhão Kiefer Moore que já está longe de ser jovem com seus 30 anos, mas que permitiu que a equipe galesa ganhasse terreno (olha a profundidade aí) e chegasse ao lance do pênalti em jogada que contou com a esperteza de Brennan Johnson (21) para bater rápido o lateral. Não acho que faltou fôlego para os americanos e sim clareza para definir os inúmeros contragolpes que tiveram quando o jogo ainda estava 1 a 0. Às vezes um pouco de pausa faz bem!



Vou fazer a minha que já já tem Argentina x Arábia Saudita. 






domingo, 20 de novembro de 2022

Dudzicopa 02 - A tremida do Catar, os jovens equatorianos e a espera por Gakpo

No teatro, na música e no stand-up comedy existe o medo de palco...
Me parece que isso aconteceu com a seleção do Catar contra o Equador no primeiro jogo da Copa do Mundo!

Não foi o jogo que esperávamos, principalmente porque o Catar não foi o que a gente imaginava. 
Sem conseguir trocar passes, os comandados de Félix Sánchez não envolveram os equatorianos. 
Sem envolver, perderam a bola. 
Sem a bola, tiveram que defender.
E defender é muito difícil para esses jogadores!

Para o Equador tudo foi muito simples e natural.
Parecia que os jovens Moisés Caicedo, Jhegson Méndez, Hincapié, Preciado e Estupiñan estavam na segunda ou terceira Copa. A atitude foi correta. A intensidade foi adequada e a parte tática foi bem seguida, sobretudo na hora de tirar a saída de bola dos cataris. Tudo isso, claro, foi coroado pelo excelente aproveitamento do experiente Enner Valencia nas finalizações. 



Me parece que as expectativas sobre os equatorianos aumentaram um pouco. Eu gostei do que vi. Acho que vai engrossar mesmo contra Holanda e acredito que possa ser superior a Senegal. 

Já os cataris jogam mais que isso, mas fiquei pensando na questão do jeito de jogar e de como, por mais que devesse ser rápido, o estilo é de calma e paciência. Desempenhar essa ideia com o estômago cheio de borboletas e um monte de equatorianos rápidos e jovens correndo pra cima de você deve ser dificílimo. Ainda mais com toda a expectativa dos torcedores do time da casa... 

A ver os jogos desta segunda:

Inglaterra x Irã

Os ingleses não vem bem e vão ter que furar a retranca iraniana de Carlos Queiroz. Veremos linha de 5 contra "linha de 6"?  Quem é que vai destrancar o ferrolho? Bellingham? Kane? Bola parada? Do lado do Irã esse trio de frente composto por Jahanbakhsh, Taremi e Azmoun prometeria muito. A ver se chegarão a jogar juntos. 

Senegal x Holanda

Gosto do Van Gaal e quero ver Cody Gakpo titular na Holanda! Acho que a Laranja pode crescer durante a competição, sobretudo se o jovem atacante do PSV tiver destaque em um time mais "operário" por assim dizer. Do outro lado, sem Mané, me parece que a segurança defensiva de Mendy e Koulibaly, além da pegada de Nampalys Mendy serão importantíssimas para que os senegaleses tenham chance. 

Gales x Estados Unidos

Quem ficar com a bola provavelmente terá problemas com os contragolpes e transições do outro time. Os jogadores do Leeds, Tyler Adams e Brenden Aaronson, me chamam a atenção na equipe americana, assim como Reyna, se chegar a jogar. Do lado de Gales, Daniel James correndo pode ajudar e Kiefer Moore pelo alto pode ser providencial para os gols que os galeses precisarão.  Bale estará lá, mas não sei como exatamente. A ver!

sábado, 19 de novembro de 2022

Dudzicopa 01 - O Catar, o Equador, vícios e virtudes

Em um mundo tomado por comentaristas de futebol de ocasião e outros de formação que por opção largaram mão, me dei a liberdade de falar sobre a Copa de 2022 aqui também.

A ideia é escrever textos curtos todos os dias. Curtos primeiramente porque já tem gente muito melhor que eu escrevendo coisas melhores que eu por aí. Segundamente porque eu duvido muito que eu vá ter a disciplina para escrever todos os dias, de forma que me engano dizendo que conseguirei desde que seja algo curto.

Bom, se eu de fato fracassar, que esse post sirva ao menos de mural para outro insucesso... 

Bueno, empezemos com o título! 

Amanhã começa a Copa do Mundo com a partida entre Catar e Equador. Teoricamente é um jogo para as pessoas passarem longe, porque não são grandes seleções e nem têm grandes craques, mas vou dizer a vocês que estou animado. Acho que podemos ter uma partida interessante de dois times que jogam de maneiras diferentes. Acho que isso pode nos proporcionar um jogo bacana para começar o Mundial!  

O Catar da posse de bola, forjado pelas mãos e cabeça do espanhol Félix Sánchez vai ter que entrar na defesa dos Alfaro Boys e evitar que a velocidade de Plata e as arrancadas de Estupiñan e Caicedo gerem grandes danos!  Aliás, Gustavo Alfaro está se divertindo na Copa! A entrevista coletiva neste sábado foi repleta de reflexões e dizeres muito interessantes. Ao menos para mim, que gosto de misturar futebol com vida, filosofia, valores, identidade e outras bobagens...


Sobre isso aliás, como não falar da mistureba que temos pelo Mundial ser no Catar? 
Não há como. 

Agora... Há como ser hipócrita para sinalizar virtudes e há como refletir um pouco mais. A número 1 é a mais pedida, mas esse nosso vício precisa ser desafiado. 

O problema não é exatamente o Catar. Assim como esse, há vários outros países nos quais a interpretação da xária (o direito islâmico aplicado) é utilizada para oprimir as mulheres e pessoas LGBTQIA+. Não me parece que a nossa visão cosmopolita, cristã, secular, millenial, capitalista e identitária importe muito por aquelas bandas. Nem me parece que o Catar tenha prometido mudar qualquer coisa para receber o Mundial. Não, o problema não é a falta de avanços democráticos e modernizantes do Catar e nem essa nossa recém-adquirida preocupação com os trabalhadores imigrantes e direitos das pessoas no Oriente Médio.  O problema é a Copa do Mundo ir para o Catar. 

Porque a gente ainda pensa que a Copa do Mundo é um prêmio ou que deveria refletir valores e ideias, já que é a festa do futebol mundial. 

Eu também comparto dessa ideia! Não se enganem. Eu disse lá em cima que gosto dessas bobagens! O problema é que esse "prêmio", valores e ideias já não são praticados faz tempo! 

Ou esquecemos da palhaçada que foi a Copa do Mundo no Brasil? Aquela que não teria um centavo de dinheiro público e que no final nos deu vários elefantes brancos, dívidas e promessas não cumpridas de uma vida melhor? Quantas pessoas morreram esperando? Quantos direitos suprimidos para construir isso tudo? Aliás... Um hoje bem sucedido e admirado gestor de futebol chegou até a explicitar o cinismo da Copa no Brasil ao dizer que não se faz um Mundial com hospitais. Lembram? 

Esquecemos também da Copa na Rússia de Putin? A mesma Rússia que foi defenestrada com a invasão ao território ucraniano, mas que era suportada até ano passado? Suportada com todas suas violações aos direitos das pessoas, anexação da Crimeia e perseguição e violência aos opositores? 

Ah, mas  o Catar é pior! Pode ser. Não vou dizer que não. Mas tudo depende da sua visão e hipocrisia. Dos seus vícios e das suas virtudes. Ou melhor... Das virtudes que você quer demonstrar ao outro na sua rede social. 

Pra mim o problema é outro. 
O problema é o dinheiro.
É terem transformado o futebol do povo no futebol dos patrocinadores, dirigentes e "pacotes de hospitalidade".

"Que bobinho ele! O dinheiro move o mundo"

Sim! Eu sou um tolo! Mas eu disse que gostava de bobagens, não disse? 

Hasta mañana. 

Será?





quarta-feira, 4 de maio de 2022

#MOT 06 - Manuel Bandeira e o Leeds

Não sabe o que é essa seção do blog? Aqui eu explico: http://dynamodudziak.blogspot.com/2021/09/mot-01-o-comeco-da-temporada-21-22.html
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- Trinta e quatro... Trinta e quatro... Trinta e quatro...
- Respire 
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- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? 
- Vocês já tentaram. A única coisa a fazer é 
tocar um tango argentino.                           (....)

Peço licenças e desculpas pela paródia de Manuel Bandeira, mas acho que vem muito bem a calhar. 

Os 34 pontos do Leeds na Premier League com quatro jogos faltando deveriam deixar o clube em uma situação confortável para garantir a permanência na elite do futebol inglês. No entanto, a arrancada do Burnley e os triunfos improváveis do Everton fazem com que o Leeds não dependa mais das próprias forças para se salvar do rebaixamento.  E mesmo que dependesse só do Leeds... Os Whites enfrentarão Arsenal, Chelsea, Brighton e Brentford daqui até o final do campeonato. Como acreditar em 12 pontos? Ou 9? Ou mesmo 6? A aposta era na incompetência dos demais!

Nesse momento, com o abismo da queda cada vez mais próximo, o Leeds não pode sequer tentar o pneumotórax (a última alternativa à qual recorre o eu-lírico de Bandeira para tentar se curar dos problemas pulmonares).  Nos Whites ele já foi tentado.

Diante da intransigência, da constrição, pressão, cansaço e falência múltipla de Marcelo Bielsa, havia a expectativa de que o alívio, a irreverência, e a injeção de oxigênio vindas do norte-americano Jesse Marsch pudessem salvar a equipe. Embora o nível das atuações não tenha melhorado muito, a defesa teve um crescimento e os pontos vieram. O problema é que vieram para os outros também... 

O Leeds precisa de mais e parece não ter de onde tirar.

Só resta o tango argentino.

Aquele cantado para e por Marcelo Bielsa, talvez? 
Em 2021 e em 2022 a música era triste. Melancólica. Angustiante. Mas ainda assim era a lembrança que o Leeds tinha algo que os outros não tinham.


Agora o Leeds tenta no ritmo Marsch. Se conseguir, a troca valeu a pena. 
Se não conseguir, significa que o Leeds não terá mais nada a que se apegar. Terá perdido o estilo de jogo que o distinguia, o orgulho da torcida, as convicções, filosofia e os jogadores (Raphinha, Phillips, etc). 

Tudo aquilo que podia ter sido, foi. Agora não é mais.