quarta-feira, 16 de março de 2022

#MOT 05 - Marchando sozinhos

Não sabe o que é essa seção do blog? Aqui eu explico: http://dynamodudziak.blogspot.com/2021/09/mot-01-o-comeco-da-temporada-21-22.html

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O Leeds United teve nesse domingo contra o Norwich uma das vitórias mais incríveis e importantes dos últimos tempos!

E eu não vi... E eu não vi porque não quis!


Eu estava vendo, eu parei de ver e eles fizeram isso! 2 a 1 com um gol aos 49 do segundo tempo!

O resultado não salva o Leeds do rebaixamento, mas era fundamental para o time permanecer na briga contra a queda à Championship. 

Mas deixem-me contar como foi que eu parei de ver o jogo de domingo. 


Embora meu motivo para torcer para o Leeds tenha sido a chegada do técnico Marcelo Bielsa ao clube, a saída dele não me fez parar de acompanhar o time. Acho que eu seguir torcendo tem um pouco de desejo de que o trabalho dele não fique maculado por um rebaixamento, mas creio que, mais do que qualquer coisa, hoje tenho um afeto em relação aos jogadores, torcedores e à cidade de Leeds. 

Ao longo de quase quatro anos eu desenvolvi isso: uma vontade de ver todos ali se dando bem. De ver o clube prosperar. De me identificar como um companheiro de torcedores que eu nunca vi ou conversei na vida.. Em suma... Querendo ou não, eu continuo envolvido com o clube!

No entanto, nesse domingo eu fraquejei. 

Eu comecei a assistir Leeds x Norwich. 

Eu cantei da minha casa as músicas da torcida em Elland Road. 

Eu vibrei com o gol de Rodrigo aos 14 minutos. 

Eu gritei pro Raphinha voltar logo pra defesa.

Lamentei a bola na trave que ele mandou! Xinguei porque o James de fato estava impedido no que seria o segundo gol do time. 

Comecei a chutar o ar pra tentar tirar a bola que o Norwich chutou no travessão! 

E então veio o pênalti para o Norwich aos 30 do segundo tempo...

Ali eu quebrei. 

Como podia esse time criar tantas chances e não fazer o segundo gol?! Como poderiam tomar o empate desse jeito, em um jogo que estava praticamente resolvido? Em casa, tudo a favor, lanterna do campeonato do outro lado, 1 a 0 no placar e o Ayling faz aquele pênalti? 

Eu olhava pra tela e não acreditava. Me sentia traído por eles. Me sentia estúpido por ter me animado. Lá íamos nós outra vez... O time ia cair. 

Levantei e falei que não queria mais ver o jogo. E olha que eu vi todos os jogos do Leeds inteiros desde julho de 2018 hein? 


Quando o Wigan com dez jogadores fez 2 a 1 no Leeds eu vi até o fim.
Quando o Leeds tomou 4 a 2 do Derby nos playoffs eu vi até o fim.
Quando o time perdeu de 6 a 2 pro Manchester United eu fiquei lá até o apito final.
A mesma coisa quando tomou sete gols do Manchester City, seis do Liverpool e quatro do Tottenham. Todos eu vi até o final. Como se fosse uma obrigação eu sofrer junto com eles.

Mas dessa vez, contra o Norwich, eu não aguentei. 


Fechei o computador, coloquei meu tênis e sai do apartamento. Fui levar o lixo lá embaixo...
Só depois de encerrar essa tarefa é que vi no celular que o pênalti havia sido cancelado pelo VAR. 
O Leeds continuava vencendo por 1 a 0.

Eu, no entanto, não me animei pra voltar a ver o jogo. Estava muito bravo com a forma como as coisas estavam indo e tinha certeza que em algum momento o Norwich iria empatar o jogo. 

Então, depois de levar o lixo, fui pra garagem e comecei a limpar o interior do carro. Recolhi uns papéis, umas notas fiscais, arrumei o álcool em gel que deixo lá e esvaziei o porta-malas. 
Subi de escada, abri a porta do apartamento e liguei o celular. 

Tava lá: 90+1' - Gol do Norwich. 

Dei um riso sarcástico, ponderei se era pra eu ter ficado lá embaixo mais tempo e fui comer alguma coisa assistindo Simpsons na televisão. 

Fiquei pensando que o Leeds estava rebaixado.
Imaginei o que estaria passando na cabeça de cada jogador e torcedor...
Que decepção! Que tristeza.
Dezesseis anos fora da Premier League pra voltar e cair dois anos depois depois...

Quando terminei de almoçar peguei o celular de novo e vi... 

LEEDS 2-1 NORWICH (Gelhardt)

Fiquei sem palavras. 
Aos 49 do segundo tempo o Leeds tinha retomado a vantagem e ganhado o jogo. 
Fiquei feliz.
Mas depois fiquei meio triste. Porque eu não vi esse gol. Não vivi em tempo real a emoção dessa vitória. 

Pensei comigo que eu de fato não merecia, afinal, eu tinha abandonado o time na hora mais difícil para eles. 

Depois pensei que quem estava em Elland Road merecia isso muito mais que eu. 

Eles de fato cantaram Marching on Together e fizeram isso! Marcharam juntos. 
Eu não... Eu deixei eles marchando sozinhos.

E a mágica da coisa é que... Tão logo eu desisti deles, eles me deram motivos para acreditar de novo. 

Acho que é assim mesmo que a coisa tem que ser.

Quando os jogadores não têm mais forças, os torcedores dão o apoio e fazem eles chegarem onde não pareciam ser capazes.


Quando os torcedores se esgotam, os jogadores mostram que merecem a confiança. 

E assim foi neste domingo.


Depois de ver o replay dos minutos que eu não tinha assistido, foi impossível não deixar algumas lágrimas caírem. 

Que coisa. 

Sexta-feira tem mais... Tem Wolverhampton e Leeds. Acho que vou assistir inteiro. A não ser que alguém me diga que eu é que dou azar e que é melhor não assistir pra eles ganharem...


Mas no fim... Valeria a pena? 





quarta-feira, 9 de março de 2022

Redes sociais, jornalismo, esporte e a deturpação da realidade

Quem me acompanha no Twitter, no Medium e na rádio CBN sabe que um dos temas que mais me interessa é o debate sobre o papel da imprensa nos tempos atuais. Tenho para mim que, em geral, o nosso trabalho não é bem feito, seja pelos simplismos, achismos ou mesmo pelo tipo de comportamentos que temos incentivado.

Sou da opinião de que o jornalista é parte importante da construção da sociedade. É ele o profissional responsável pela mediação entre os diversos entes da esfera pública (poder público, autoridades, especialistas, locais distantes da realidade de cada indivíduo, etc). Ele faz essa mediação por meio das notícias, reportagens, entrevistas e da constante "busca pela verdade", ainda que essa seja de difícil obtenção e definição. Nesse sentido, o profissional de comunicação carrega uma responsabilidade muito grande.   

Muitos jornalistas, porém, não tem essa visão tão idealizada da profissão e acreditam que a missão deles é comunicar. É servir a quem paga ou então ser a voz de quem consome as notícias. Entendo que há base teórica para pensar assim também, como por exemplo nos coloca a tese do jornalismo estrutural. Eu, no entanto, não concordo. 

Talvez seja romântico da minha parte, mas eu penso que além de parte importante da construção da sociedade, o jornalista em muitos momentos tem até papel de educador. Não por conhecimentos próprios, mas sim por conectar conhecimentos de outros a pessoas que não os têm. A pandemia nos mostrou isso em grande medida. Não fossem os esforços desses profissionais muitas pessoas provavelmente estariam ainda achando que a Covid é uma gripezinha ou que antiparasitário mata vírus. 

Da mesma forma, dentro desse meu romantismo, acredito que a noção de quarto poder do jornalismo é verdadeira e que a sociedade "cede" sua boa fé e confiança a esses profissionais da comunicação para que eles desempenhem esse papel fundamental de fiscalizar, contestar e buscar o interesse público. Para além disso, penso que em uma sociedade cada vez mais conectada e na qual há uma enxurrada de informações e desinformações, o papel do jornalista é muito importante.  

O que eu disse aqui em cima para mim também se aplica ao papel do jornalista esportivo. Na minha visão, além de trazer os relatos sobre os jogos, as informações sobre os campeonatos e o dia a dia dos clubes e figuras importantes do esporte, cabe ainda a esse profissional levar às pessoas uma análise justa, respeitosa, condizente com a realidade e também ciosa do papel que o esporte representa dentro da sociedade. Trata-se de uma atividade econômica e que carrega inúmeros itens do entretenimento, mas que também está formada pelo aspecto lúdico e pelo alto valor cultural que tem no Brasil. 

Nos últimos anos tenho visto uma deterioração do jornalismo como um todo, em especial o esportivo. Acredito que isso tem contribuído também para uma deterioração das relações das pessoas com a realidade, o que é um campo fértil para a desinformação, manipulação e perda de credibilidade. Nesse texto queria refletir um pouco sobre isso e, de forma mais detida, sobre o jornalismo esportivo. 

As redes sociais e o "nós somos assim"

Acredito que esse movimento de deterioração do jornalismo vem ocorrendo há anos, mas que as redes sociais têm acelerado o processo. Da política à família, passando por economia, cultura, justiça e espiritualidade, as redes sociais envenenaram quase todas as nossas relações. 

Por algum tempo convencionou-se dizer que "as pessoas são assim" e que as redes são só um reflexo. Isso está errado. Nós não somos assim. São as redes sociais que nos deixam assim ao estimular e reprimir maus e bons comportamentos. Em seu livro "Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais", Jaron Lainer, pioneiro na internet, cientista da computação e um dos maiores críticos das empresas do Vale do Silício, diz:

"O principal processo que leva as redes sociais a ganharem dinheiro, embora também cause danos à sociedade, é a modificação de comportamento. Essa prática exige técnicas metódicas que mudam o padrão comportamental de animais e pessoas. Pode ser usada para tratar vícios, mas também para criá-los. Os danos à sociedade ocorrem porque o vício enlouquece as pessoas. O viciado vai perdendo gradualmente o contato com o mundo e as pessoas reais. Quando muitos estão viciados em esquemas manipuladores, o mundo fica obscuro e louco."

Ele ainda adiciona:  

"Originalmente, os alimentos eram a recompensa mais comum usada em experimentos behavioristas, embora a prática remonte a tempos antigos. Todo adestrador os utiliza, dando um petisco a um cachorro depois que o animal faz um truque. Muitos pais de crianças pequenas também fazem isso.

O prazer viciante e os padrões de recompensa no cérebro --a "pequena dose de dopamina"  integram a base do vício em redes sociais, mas não é só isso, porque a rede social também usa a punição e o reforço negativo.

Vários tipos de punição têm sido usados em laboratórios behavioristas; os choques elétricos, por exemplo, foram populares durante algum tempo. Mas, assim como as recompensas, não é necessário que as punições sejam reais ou físicas. Às vezes os experimentos negam à cobaia pontos ou símbolos.

Você está recebendo o equivalente a petiscos e choques elétricos quando usa as redes sociais"

Em linhas gerais (mais pode ser lido nesse texto meu) as Big Techs ganham dinheiro com o tempo que passamos nelas. Conteúdos divertidos e interessantes desempenham um papel nesse objetivo, mas os conteúdos que geram emoções negativas são a principal fonte de tempo gasto nas plataformas. Pode parecer um contrassenso, mas a psicologia explica e uma rápida olhada nos nossos hábitos deixa muito claro que as emoções negativas ficam e nos motivam a postar mais e passar mais tempo nas redes reagindo. 

A questão é que aquilo que se faz nas redes sociais, me parece, tem sido transposto para a realidade fora delas também. A forma como nos relacionamos com as pessoas e os temas do dia a dia na vida real têm sido cada vez mais parecida com a forma como nos relacionamos com os assuntos e os outros nas redes sociais. Simplificações, binarismos, polarização, desrespeito pelo contraditório, falta de contextualização... 

O jornalismo profissional, que poderia ser importante ferramenta no combate a esse modus operandi, na verdade me parece que tem ajudado nesse movimento de transpor a rede social para o dia a dia real. Como isso se dá? A minha percepção é de que ultimamente as empresas de comunicação - em crise há muitos anos pela total inabilidade de navegar nos novos tempos - decidiram esquecer grande parte de suas funções sociais para abraçar de vez o modus operandi das big techs, espremendo cada centavo que possa vir dessa relação promíscua entre os algoritmos e a monetização/atenção trazida pelas redes sociais.  

Assim, palavras que norteiam o bom jornalismo, como contextualização, fidelidade aos fatos, isenção (pelo menos como objetivo) e responsabilidade social têm dado lugar à busca por simplificações e engajamento a qualquer custo. Me parece que todos nós estamos vivendo isso. 

Além disso, ao usar as redes sociais como fonte de pautas e termômetro da opinião e posicionamento das pessoas sobre os temas, o jornalismo tem tornado legítimo e amplificado o que teoricamente seria "contaminado" e restrito, ajudando nessa desconexão das pessoas com a realidade. O contato entre quem noticia e quem recebe tem sido cada vez mais mediado por notícias, opiniões e análises que surgem das redes sociais e que - como já falamos - visam não às boas práticas de comunicação, de cidadania, responsabilidade social, etc e sim ao engajamento.  

Jornais que respondem às redes sociais. Que tem medo do julgamento delas. Que fazem de debates virtuais, questões reais. Que ignoram o interesse o público. Que simplificam a realidade. Que tornam o declaratório mais importante que os fatos e por aí vamos...

No jornalismo esportivo a coisa me parece ainda pior. 

O jornalismo esportivo abraça o Twitter 

Infelizmente há a noção entre os jornalistas, espectadores e gestores de que o jornalismo esportivo  configura um nicho de menor importância, que não se leva a sério e que não merece ser levado a sério. Esse julgamento de todos os envolvidos torna muito mais fácil arrombar a porteira de qualquer escrúpulo e abandonar qualquer tipo de função social ou busca pela verdade na prática diária.

No jornalismo esportivo de hoje o que importa, definitivamente, é a audiência. Qualquer audiência. Tanto faz onde, tanto faz quanto e quem...  Nesse objetivo da audiência a qualquer custo, as redes sociais se tornaram balizador e norte para o jornalismo esportivo brasileiro. Os programas, os textos, as transmissões... Todos são feitos para gerar engajamento. Por isso só há polêmicas vazias, questionamentos a tudo e todos, menosprezo, desprezo, enquetes, ironias, deboche e agressividade. Esse é o modelo das redes sociais! Emoções negativas que geram engajamento, atenção e tempo gasto. O jornalismo esportivo só transpôs para sua realidade. 

A decisão tomada em nível gerencial passou rapidamente para os profissionais e os efeitos disso são sentidos no dia a dia. Ao não termos uma imprensa esportiva comprometida com os valores que teoricamente deveriam balizá-la, automaticamente o formato das redes sociais invade a prática diária dos profissionais e, gradativamente, vamos promovendo uma desconexão com a realidade. Temos um cenário, um contexto e um dia a dia que são levados aos ouvintes, espectadores e companhia pela ótica das redes sociais... Essa é a realidade? Que realidade é essa? 

Como dito lá em cima, ao fazerem no dia a dia jornalístico o que as redes sociais já promovem (ódio, raiva, ranço, emoções negativas), os jornalistas legitimam esses comportamentos negativos e naturalizam a noção de que essa é a relação correta de pessoas com a prática esportiva. Ou que essa é a única relação possível. 

Recentemente tem sido praxe ver jornalistas que não se interessam mais em tentar buscar a verdade dos fatos, mas apenas capturam os sentimentos das redes sociais e na sequência moldam a realidade. Os resumos dos jogos fazem eco com que a torcida pensou nas redes. Os setoristas se tornaram "representantes do torcedor" nas coletivas. Os debates são construídos a partir das emoções que os usuários tiveram durante ou após o jogo. Por isso cada vez mais a derrota, erro e o "ver o outro ganhar" - conceitos que são inerentes ao esporte -  têm se tornado formas de vilipendiar a honra alheia, de vexar, de destruir...  

Recentemente coloquei no meu perfil no Twitter (incoerente eu?) que os jornalistas esportivos também precisam assumir a sua parcela de responsabilidade na onda de violência que assola o nosso futebol. Reproduzo aqui, pois acho que está bem escrito e resumido o que penso a respeito:

"Quando é que os jornalistas esportivos vão assumir a sua parte da responsabilidade na onda de violência que assola o nosso futebol? E os influencers, que ganham dinheiro com seus "rompantes" "reacts" e xingamentos? 

É muito cômodo para a classe falar "isso não é torcedor" ou "isso é caso de polícia". Fazer algo de verdade para conscientizar as pessoas sobre o que é o esporte, humanizar novamente as relações entre torcedores, baixar o calor das coisas, promover reflexões, isso ela não quer. 

Os adjetivadores profissionais, os provocadores de alta estirpe, os defensores da revolta contra tudo e todos... Esses são enormes responsáveis. Ser jornalista não deveria trazer só o "privilégio de falar pra muita gente". Deveria ser a RESPONSABILIDADE de falar pra muita gente"
As respostas em geral foram bastante positivas, mas - como eu já esperava - houve alguns colegas que não gostaram de serem responsabilizados e algumas pessoas que deram uma de pombo enxadrista para dizer que "ninguém taca bomba em ônibus por ver vídeo no Youtube". 

Obviamente que não, mas a coisa é mais sutil. Trata-se do clima de tolerância que vai se criando em torno desses temas. Não que algum formador de opinião defenda a bomba ou pedra no ônibus, mas a noção de que a revolta é justificada, que os atletas precisam "honrar a camisa", que o erro não pode ser tolerado, que a derrota traz vergonha e desonra ou que a "paixão impede a racionalidade" cria um ambiente propício para radicalismos e antagônico à cobrança por atitudes que de fato possam mudar essa realidade. Não se trata de tuítes revoltados e sim de a sociedade tomar as rédeas da situação. 

Há um movimento das pessoas comuns pedindo providências para a violência no futebol? Por que não? Existe algum movimento dos clubes para tomar providências? Por que não? 
Existe alguém da classe política empenhada nisso? Ministério Público?
Como esses entes todos são provocados a agir?
Há clima para que essas cobranças sejam feitas? De que lado estão os meios de comunicação e influencers?

Será que a violência no futebol está institucionalizada e referendada, ainda que de maneira velada?  

O que é o futebol e para quem ele é?

Para além de todas essas reflexões, termino esse texto com algo que para mim é muito importante. 

Pra começar... Três perguntas:

Por que existe o futebol? 
Por que praticamos e assistimos? 
Por que eu ou você torcemos para um time? 

Por não ser vida ou morte. Por não ser obrigatório. Por não ser essencial para nada, precisamos lembrar que o futebol existe basicamente porque nós queremos e gostamos. Ponto. 

Nós queremos e gostamos. 

Será que temos querido e gostado? 

Se não, como fazer para de novo querer e gostar?

Claro que as emoções negativas fazem parte. A decepção. A frustração. A tristeza. A raiva. Mas o futebol não foi criado para raiva, decepção e frustração. Ele não apaixona porque frustra. Ele não comove porque enerva. Embora muitos o tratem como válvula de escape, o sentido está deturpado. Porque não é escape para manifestar raiva, tristeza, frustração e violência que estão guardados. É escape porque dá a possibilidade de quem passa todo dia por provações ter acesso à glória, ao triunfo e à alegria ao ser representado dentro de campo. 

Esse é o escape! 

Será que as redes sociais, o jornalismo e as pessoas envolvidas com o futebol estão lembrando do real sentido dele? 

Encerro por aqui e convido vocês a refletirem e questionarem. 




domingo, 16 de janeiro de 2022

Bielsa's real madness

Leeds United are in a diffcult situation this season. The team will have to improve a lot to have a calm end of season. This is very clear for everyone to see and doesn't require my input for everyone to realize the risk of relegation they're facing right now. However, this piece is going to talk about a loose end I've left in my last post. It is a piece about the "madness" of Marcelo Bielsa. 



Throughout the years, it became very common to put the argentinian manager inside a box of the "excentric characters" in football. In that regard, the nickname El Loco, that was given to Marcelo in the early years of his carreer, fitted that purpose. Because of that, a lot and lot of times the content of his football work and the messages passed on by Bielsa through his press conferences and attitudes were left aside. Lining up of a lot of attackers, put players out of position, trying to play football against every opponent everytime, the habit of not looking up to the faces of journalists... All of that is deemed to be seem as traits of a curious coach. Even a "funny one". 

Even today, a lot of broadcasts around the world talk about the bucket, the frenetic walks in the technical area and the squats rather than football itself. That is mass media strategy, of course, but it prevents a lot of fans and pundits to absorb all that could be absorbed by hearing and seeing the work of someone who is so different from other managers. Different not because of auto-marketing or anti-marketing, not because he is an excentric, but because he questions common senses and things that are given as normal, but that perhaps doesn't make sense.

There is the real madness of Marcelo Bielsa in my opinion. It isn't the odd behaviors but the ability to look at everything that is deemed as natural and ask "why?" or even to say "this doesn't make sense'. 

Marcelo behaves in this way since the beggining of his carrer. This trait was there in his obsession with the fitness preparation. It was there in the bet of developing young kids at Newell's. In México, where he worked as a football coordinator. It was present when he changed the game model of a  Velez Sarsfield that won everything in the previous years. This behaviour was there when he decided that Riquelme wouldn't be in the 2002 World Cup argentinian squad and that Batistuta and Crespo couldn't play together. 

It was also there when he gave a identity to the national chilean team, at Athletic Bilbao where he put up a ofensive and intense team in a club that usually favoured a more cautious approach, at Marseille where a group of castouts became protoganists or even at Lille, when he released players that were fans favourites or experencied players to build the youngest squad of the top five leagues in Europe (what was one of the reasons for his failure there).

That kind of decision, allied with his will to always be the protagonist of matches and don't change his style of play or even in preparation to matches generates a lot of criticism. Why? Because it became common sense that in football those who take risks are naive and those who seek the mediocrity are the ones that "take it seriously". Without going in to the details regarding the playfullness of football and the values that Bielsa tries to show people through the sport, I will hold onto the most visible and shallow part of it all: Bielsa thinks different, defy the common sense and justifies his thoughts. 

When he is accused of tiring his players out, he says that the numbers give support his approach. The accusers never win this argument because they use their eyes to say there is tiredness among the squad and not the science and statistics that Bielsa has by his side and that I believe are true. 

When people accuses him of being naive for playing his way all the time, he says that the risks of having the ball and attack are the same of not having the ball and defend.

When people talks down his choice of having a small squad, Bielsa says that having too many players can cause a disturbence of the group of players, cause to manage is to balance many different interests from different human beings in a highly competitive enviroment. 

When pundits or fans underlines the need of his teams having a plan B, Bielsa says he favours spending this time making plan A better. 

These are just some of the more common questions that Bielsa has faced throughout his carrer. There are several others that comes and goes depending on the results that the team obtains. 

You can disagree with what Marcelo does and says, but I think that we have to acknowledge that his arguments makes sense. What bring us to a sense of strangerness is that almost nobody else thinks like him. There are the fundamentals of the allegedly crazieness that Bielsa offers us. 

Regarding Leeds United, that are the objective of this blog section, I would like to emphasize what he thinks about the club, squad and modern football in this moment that the team is fighting a relegation battle. The great criticism to his and Victor Orta's management of this season has been - as I already mentioned in other pieces - the lack of signings to take the next step in garanteeing that Leeds reafirms itself as a Premier League clube.  

The common sense gives us a very simple explanation: the team that signs more players, that signs good players and that spends more money has more chances of prevailling and be better. Bielsa however offers us the flip side of the coin: is it worth spending a lot if there's no garantee that the new players will be better than the ones that are already at the club? 

I think this has to be taken into account. Leeds will not be able to sign sure shots on the market. There's no way to bring established players that garantee points, like the ones in the big six teams. So, the possible field of signings is that one of good prospects to mid-table teams, like Crystal Palace did when they brought Gallagher (that Leeds also were interested into), like Leicester did with the signing of Soumaré and Brighton did with Cucurella. However, at the same time, we can remember that Aston Villa payed 38 million pounds on Buendía, and the argentinian has failed to make a impact so far, while Wolverhampton payed 35 million pounds on Fabio Silva in the  previous season and are still waiting to reap the rewards. These are just some examples. There are many others that were sucessfull - what would lead us to think that Leeds are wrong in not spending more - and unsucessfull ones - that would prove that Leeds were right. The fact is that this logic of signing and winning is not that simple at Premier League level, specially  with clubs that don't have a lot to spend. 

It's important to say aswell that Leeds placed their bets and spend a lot. Twenty five million pounds on Daniel James, 15 million euros on Junior Firpo, 30 million euros on Rodrigo Moreno in the previous season. As of now, none of them helped the team in a sufficient manner. At the same time, Llorente for 18 million pounds and Raphinha for 17 brought a good level of perfomance and helped the team so far. So, again, it is a simpleton logic the one that says that Leeds could be better by just signing more players. This is one of the reasons that make Bielsa keep his faith in a small squad and a core group of players that is with him since the first season, back in 18-19. 

Of course that this reasoning becomes criticism when an injury crisis, a match ban and a Covid case makes ten senior players unavailable to face Arsenal, what forces the manager to rely on two under-21 youngsters to be in the starting eleven and eight players who are under 20 to make the bench (one of them a 15 year old), but... The fundamental point is that Bielsa does not believe in large squads nor in signing players. He believes in developing playerss within a small group that will be aided by youngsters in times of need. 

He believes so much in it that he does not complain about the injury crisis. On the contrary... The journalists incites him to complain or to give an answer regarding the need of the club to be in the market in january, but he doesn't bow: he blames himself and doesn't think the injuries prevented Leeds from playing better. He understands that even with a small group, few signings and a lot of injuries, it was possible to obtain more points than the team has right now. 

This logic stirs up a lot of fans and make some journalists baffled. "How can he be so stuborn?" "How he can not see that this level of player is not enough?" "The team is going down and he insists with this talk that we can blame him, but he doesn't change the game model!". 

I also question a lot of these decisions. Bielsa is no superman. He is not the reincarnation of God. But the errors that he makes are almost always backed up by a logic. That doesn't make them less severe or better errors, but we that are outside of the club and the daily work are always armed to the teeth with the results, our fears and anxieties, but almost never with the knowledge and perceptions that only those that work with the players and within the club have. 

And is worth noticing. These questions surround Bielsa for many many years now and in Leeds most of them were imploded by the reality. In the 18-19 season, Bielsa turned Kalvin Phillips from a box-to-box midfielder, almost a ten, into a single pivot defensive midfielder and even a center back. It worked wonders for Kalvin and the team. In the 19-20 season Bielsa insisted in his style of play to obtain promotion while he backed up Bamford as his number 9, even though, the whole world of football was demanding Nketiah to be the centreforward. In the past season, the argentinian sustained the idea that Stuart Dallas would be a center midfielder and he reaped the rewards, with the Northern Irish being player of the season. In the 21-22 season, Bielsa and Leeds stood firmly in the belief that Adam Forshaw, who didn't play for almost two years, would be an important player in the Premier League and there he is, doing exactly that.

That goes without saying how many young players became trustworthy options for the first team, like Struijk, Shackleton and now Gelhardt, and, of course, the belief that Leeds should play the "Bielsaball" all the time (sometimes well, sometimes - a lot in this season - poorly). So... Up to this point, very few times time didn't prove Bielsa was right.  

However, to confront and surpass all these reasonings it was and it is necessary to practice two concepts that are long lost in our society, specialy in football: patience and belief. 

Even if we want to... Even if we live to.... Even if we don't realize it... The time of things it is not our time. It is not in football aswell. 

I myself, as a fan, am desperate with my team. I think that their effort is not going to be enough. I don't think these guys will play better. I think that something different has to be made because if it didn't work in 18 rounds it will not work in the next 18. But... I'm not there. I'm not at the dressing room. I'm not Bielsa, Klich, Dallas or any other player. I am scared. I am anxious... They're not. 

Those who are inside the club and that work everyday believes that they will get it right. "Our level will be up". "What we are doing is going to get us better results than to fill up our squad with new players". "It would be worse to change something now, because we would lose everything we have built so far". 

This is the madness that Bielsa impose us: to look rationaly (and not with anxiety or fear) and admit the existence and coeherence of his vision. A vision that is very odd since we are in a society in which everything is for yesterday, one in which complex thoughts and concepts fit into 280 characters ​and memes, one in which is very hard to deal with frustrations.

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Recently Bielsa was asked about the bad form of the team and how he face this moment. He said: "With fortitude, facing the most difficult moments and coming out of them correcting things, taking things on board and not  delegating the reasons why to others.”

Yeah...

What a crazy guy huh?

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

#MOT 04 - A verdadeira loucura de Bielsa


Não sabe o que é essa seção do blog? Aqui eu explico: http://dynamodudziak.blogspot.com/2021/09/mot-01-o-comeco-da-temporada-21-22.html


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A situação do Leeds na temporada é periclitante. O time precisará melhorar muito se quiser ter um fim de Premier League minimamente tranquilo. Isso está posto para todos verem e não preciso eu dizer o tamanho do risco de rebaixamento. No entanto, esse texto é para falar sobre uma ponta solta que deixei na última postagem. É um texto para falar sobre a "loucura" de Marcelo Bielsa.

Ao longo dos anos convencionou-se colocar o técnico argentino dentro da caixinha dos "personagens pitorescos" do futebol. Para tanto o apelido "El Loco", dado ainda no começo de carreira, serve bem a esse propósito. O propósito de reduzir o treinador a uma caricatura. Por causa disso, muitas e muitas vezes deixou-se de analisar o conteúdo dos trabalhos futebolísticos e das mensagens passadas pelo treinador em suas coletivas e atitudes. Escalar muitos atacantes, improvisar atletas, tentar jogar futebol contra todo e qualquer um, não olhar para o rosto dos jornalistas... Tudo isso é visto como curioso. Engraçado até.


Mesmo hoje na Premier League as transmissões preferem falar sobre o "balde" de Bielsa, o andar frenético na área técnica e a posição de cócoras a tratar do futebol propriamente dito. Isso é comunicação de massa, obviamente, mas impede muitos torcedores e analistas de sorverem tudo o que pode vir de alguém que claramente é diferente dos outros. Diferente não por marketing ou anti-marketing, não pela excentricidade, mas sim porque questiona coisas que temos como dadas e sensos comuns que talvez não façam sentido, mas que são aceitos mesmo assim.


Aí está o que eu considero a verdadeira "loucura" de Marcelo. Não são os comportamentos "distintos" e sim a capacidade de olhar para tudo o que está colocado como natural e falar "por quê?" ou então dizer que "não faz sentido".


Isso vem com ele desde o princípio da carreira. Seja na obsessão pela preparação física, pela aposta em desenvolvimento de novos jogadores no Newell's, seja nas escolhas de trabalhar no México como coordenador ou de mudar o jeito de jogar de um Vélez Sarsfield que já tinha conquistado tudo. Ficou muito claro nas mais midiáticas decisões da carreira, como barrar Riquelme da Copa de 2002 e se recusar a escalar Crespo e Batistuta juntos. Também foi assim quando ele deu uma identidade de jogo a uma amorfa seleção chilena, no Bilbao ao montar um time ofensivo e intenso num clube que tradicionalmente tem outra abordagem, no Marseille, onde pegou um grupo de desacreditados e colocou vários jogadores em condição de protagonismo (Gignac, Payet, Ayew, Mendy e outros) ou ainda no Lille, quando dispensou ídolos e atletas experientes para montar o elenco mais jovem das cinco grandes ligas da Europa (uma das razões do enorme fracasso ali).


Esse tipo de decisões aliada à vontade de ser sempre protagonista e não mudar a abordagem do time nos jogos ou da preparação física antes dos jogos gera rechaço de boa parte das pessoas. Por quê? Porque convencionou-se encarar o futebol como um jogo no qual quem se arrisca é leviano e quem procura a mediocridade "leva a sério" a disputa. Sem entrar nos detalhes da ludicidade da modalidade e dos valores que Bielsa tenta incutir nas pessoas por meio do futebol, me aferro apenas à parte mais superficial que é: Bielsa pensa diferente, desafia o senso comum e justifica o que pensa.


Quando é acusado de "cansar jogadores" diz que os números respaldam sua abordagem. Nunca os acusadores ganham essa, pois usam o "olho" para dizer que há cansaço e não a ciência que Bielsa tem a seu lado.

Quando o acusam de ser "leviano" por tentar jogar sempre, alega que os riscos de ter a bola e atacar são iguais aos de não ter a bola e defender.

Quando falam da sua predileção por um elenco menor, Bielsa justifica que ter atletas demais pode significar uma perturbação do ambiente, pois cabe ao treinador equilibrar o interesse de muitos indivíduos em um ambiente de extrema competição.

Quando falam sobre a necessidade de o time ter um plano B, Bielsa diz que prefere gastar esse tempo fazendo o plano A ser melhor executado.

Esses são só alguns dos questionamentos mais comuns. Há vários outros que fazem parte da carreira dele.

Você pode discordar do que Marcelo diz, mas acho que temos que reconhecer que os argumentos fazem sentido. O que nos leva ao estranhamento é ver que quase ninguém pensa como ele. Aí estão os fundamentos da suposta "loucura" que Marcelo Bielsa nos oferece.


Em relação ao Leeds United, que é o mote dessa seção, eu destacaria especialmente nesse momento, em que o clube briga para não cair, o tipo de visão que Marcelo tem sobre a instituição, jogadores, elenco e futebol atual. A grande crítica à gestão dele e do diretor de futebol Victor Orta nessa temporada tem sido - como já coloquei antes - a falta de contratações para dar o passo seguinte na reafirmação do Leeds como time de Premier League.

O senso comum é muito simples: um time que contrata mais, que contrata bem e que gasta dinheiro tem mais chances de se manter e melhorar. Bielsa, no entanto, oferece o outro lado da moeda: vale a pena gastar muito se não há garantia de que os novos jogadores serão melhores que aqueles que já estão lá? Porque isso precisa ser levado em conta. O Leeds não vai contratar tiros certos do mercado. Não há como trazer jogadores estabelecidos que garantem pontos aos times do topo. O campo possível então seria o de boas apostas para times de meio de tabela, como por exemplo fez o Palace ao trazer Gallagher (que interessava ao Leeds), o Leicester com a chegada de Soumaré e o Brighton com a contratação de Cucurella. Mas, ao mesmo tempo, podemos notar que o Aston Villa pagou 38 milhões de libras por Buendía e até agora o argentino não conseguiu jogar, enquanto o Wolverhampton na temporada anterior gastou 35 milhões de libras no jovem Fábio Silva e ainda aguarda o retorno. Esses são alguns poucos exemplos. Há outros bem sucedidos que mostrariam o erro do Leeds e outros malsucedidos que mostrariam teórico acerto dos Whites. Fato é que essa lógica de contratar e ganhar não é tão simples na Premier League, ainda mais em clubes que não tem tanto dinheiro para gastar.

E importante dizer também que o Leeds fez sim suas apostas. 25 milhões de libras em Daniel James, 15 milhões de euros em Junior Firpo, 30 milhões de euros em Rodrigo Moreno na temporada anterior... Nenhum deles ajudou o time o suficiente. Ao mesmo tempo, Llorente por 18 milhões de libras e Raphinha por 17 deram bons resultados. Então é simplória a lógica do "contrata mais e ganha mais". Essa é uma das razões pelas quais Bielsa segue fiel à sua filosofia de elenco curto e à espinha dorsal que o acompanha desde a primeira temporada. Evidentemente que essa lógica é muito questionada quando uma crise de lesões, uma suspensão e um caso de COVID fazem o seu time não ter 10 atletas disponíveis para enfrentar o Arsenal, o que te obriga a ter dois meninos menores de 21 anos em campo e oito jovens com menos de 20 anos no banco (um deles com 15), mas... O ponto fundamental é que Bielsa não acredita em elencos grandes e nem na contratação de jogadores e sim no desenvolvimento de jogadores dentro de um grupo curto com o aporte de jovens em momentos de necessidade. Tanto ele acredita nisso, que Bielsa também não reclama dessa situação. Pelo contrário... Os jornalistas clamam por uma reclamação ou admissão de que o time precisará ir às compras, mas Marcelo não enverga: diz que é culpa dele e não das lesões... Entende que mesmo com esse grupo pequeno, poucas contratações e lesões em profusão, era possível ter obtido mais pontos até agora.

Essa noção revolta boa parte dos torcedores e deixa abismados os jornalistas. "Como pode ser tão teimoso?". "Como ele não enxerga que esse nível de jogador não é suficiente?". "O time vai cair e ele aí com esse papinho de que a culpa é dele, mas sem mudar o jeito do time jogar!".


Eu pessoalmente também questiono muitas dessas decisões. Bielsa não é um super-homem. Não é reencarnação de Deus. Mas os erros dele me parecem quase sempre amparados numa argumentação lógica. Isso não faz deles menores ou melhores, mas nós de fora estamos sempre estamos armados com os resultados, nossos medos e ansiedades, mas quase nunca com o conhecimento e as percepções que só o dia a dia e a experiência dentro do futebol são capazes de dar.

E vale lembrar... Esses questionamentos acompanham Bielsa há muitos e muitos anos e no Leeds a maioria deles foi dinamitada pela realidade. Na temporada 18-19, Bielsa transformou Kalvin Phillips de um camisa 8 - quase 10 - em primeiro volante e até zagueiro. Deu muito certo. Na temporada 19-20 insistiu no estilo de jogo para conseguir subir e manteve Bamford titular mesmo com todo o mundo do futebol pedindo para Nketiah tomar a vaga dele. Deu muito certo. No ano passado sustentou a ideia de que Dallas seria meiocampista e colheu os frutos, com o norte-irlandês sendo eleito o melhor jogador da temporada. Já na 21-22 ele e o clube bateram o pé ao apostarem que Adam Forshaw, há dois anos sem jogar, seria importante na Premier League. Não deu outra. Sem contar todos os jovens jogadores que se tornaram opções confiáveis, como Struijk, Shackleton e agora Gelhardt, e a aposta de manter o Leeds jogando no Bielsabol em todos os momentos (às vezes bem e às vezes - muitas vezes nessa temporada - mal). Ou seja... Até aqui poucas vezes o tempo não deu razão a Bielsa.

Porém, para enfrentar e ultrapassar todos esses questionamentos foi e é necessário praticar dois conceitos que hoje estão perdidos na sociedade e em especial no futebol: PACIÊNCIA e CONVICÇÃO.


Por mais que queiramos. Por mais que vivamos. Por mais que não realizemos... O tempo das coisas não é o nosso. No futebol também não é.

Eu, na posição de torcedor, estou desesperado com o time. Eu acho que não vai dar. Eu acho que não tem como mais esses caras jogarem bem. Acho que algo diferente tem que ser feito porque se em 18 rodadas não deu certo, não vai ser agora que vai dar! Mas... Eu estou de fora. Eu estou ansioso. Eu estou com medo.

Quem está lá dentro olha o dia a dia e acredita: "vamos acertar". "O nível vai melhorar". "O que nós estamos fazendo vai garantir resultados melhores do que encher o time de novos jogadores". "Mudar agora seria pior porque perderíamos tudo que construímos".

Essa é a loucura que Bielsa nos impõe: olhar com racionalidade (e não ansiedade e medo) e admitir a existência e coerência dessa visão dele em uma sociedade em que tudo é para ontem, em que raciocínios complexos cabem em 280 caracteres e memes e na qual há uma enorme dificuldade em lidar com frustrações.


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Recentemente ao ser perguntado sobre a má fase do time e como ele encara o momento ruim da equipe, Marcelo disse: "Com fortitude, encarando o momento, assumindo responsabilidades, corrigindo os erros e não delegando aos outros a culpa".

É...

Que cara louco né?

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

#MOT 03 - Não é uma fase...

 Não sabe o que é essa seção do blog? Aqui eu explico: http://dynamodudziak.blogspot.com/2021/09/mot-01-o-comeco-da-temporada-21-22.html


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Três vitórias em 13 jogos não é mais má fase... É situação mesmo. Até agora o Leeds venceu apenas o Crewe Alexandra na Copa da Liga, o Watford e o Norwich. De resto apenas empates e derrotas... A pergunta segue sendo: o que mudou nesse time? As respostas seguem difíceis de serem encontradas. 

Alguns torcedores acham que o problema é a defesa, mas na temporada passada, quando o Leeds chegou em nono, ela já era ruim assim mesmo. Os 54 gols sofridos em 38 jogos representam uma média de 1,47 gols sofridos por jogo. Os 17 sofridos em 10 jogos agora representam 1,7 por jogo. Foi justamente essa a média do time antes dos últimos onze jogos da temporada passada, quando a defesa melhorou bastante, sofrendo apenas oito gols, mesmo enfrentando Manchester United, City, Chelsea, Tottenham e Liverpool. 

O que está muito diferente, no entanto, é o ataque. Na temporada 20-21 o Leeds marcou 62 gols em 38 jogos, o que dá uma média de 1,63 por partida. Nesta são 10 gols em 10 jogos... No fundo, era o ataque prolífico e não a defesa sólida que levavam o Leeds adiante. Por isso, me parece que tentativas de melhora na classificação deste ano precisam passar por atacar melhor. E por que o Leeds parou de atacar bem?

O fato do artilheiro Patrick Bamford ter atuado em apenas cinco jogos na Premier League certamente ajuda a explicar, mas não enseja toda a complexidade da coisa a meu ver. Teoricamente a ausência de Bamford permitiria a Rodrigo Moreno jogar mais perto do gol e desequilibrar mais os jogos, como se achava que ele faria quando foi contratado e como ele não estava fazendo jogando como camisa 10 do time. Na prática, porém, Rodrigo não mostrou essa capacidade até agora. Me parece que tem uma questão do físico, que não o permite disputar no corpo com os zagueiros adversários e uma questão de característica mesmo, já que o espanhol não é muito afeito às corridas em profundidade para levar a linha defensiva para longe. Rodrigo gosta da bola no pé, da movimentação e da associação com passes. Não seria exatamente um problema, se alguém pudesse ajudá-lo na tarefa, mas se ele fica aqui, ninguém está lá na área para empurrar a defesa e dar a ele o espaço que ele precisa. 

Além de Rodrigo não ser esse cara no momento, parece que Tyler Roberts também não será. O camisa 11 tem sido uma grande frustração. Você vê que ele tem qualidades, que ele sabe o que fazer com a bola, mas quase nunca ele entrega o que pensa em fazer. E se a camisa 9 está com esses problemas, o que dizer de Harrison e James? Os dois correm, correm e raramente entregam algo no fim dessas corridas. E não é que sejam maus jogadores! Longe disso! Mas a fase de ambos é ruim, a de Harrison mais que a de James. Além disso Klich não tem entregado a criação que se espera e com as lesões de Ayling e Firpo, Dallas não joga mais no meio... Quando jogou o norte-irlandês também foi mal. 

Então, neste momento, coletivamente, o Leeds cria pouco, cria mal e muitas vezes finaliza mal também. Nos últimos jogos, inclusive, o único desafogo tem sido dar a bola para Raphinha tentar resolver tudo. Não fosse por ele a situação seria ainda pior.  Mas não dá para o Leeds seguir tão dependente assim de um atleta. Não por capricho ou filosofia e sim porque não é possível jogar sozinho nesse nível. 


Bom, falei aqui da parte individual do porquê o ataque não tem funcionado na minha visão. E considero impossível que tantos jogadores fiquem tão mal ao mesmo tempo sem razões coletivas...

No entanto, o que mudou coletivamente? Sinceramente acho que pouca coisa. Muitos torcedores culpam a falta de um meio de campo, o que estaria fazendo o Leeds ser muito mais direto do que antes. A bola pula da zaga para o ataque e isso, segundo muitos, tem a ver com a falta de meiocampistas confiáveis para fazer o jogo transitar por ali. Isso é verdade. Basta o adversário subir a marcação para que os Whites se vejam sem opções de saídas curtas. 
Mas era assim ano passado também! Talvez um pouco menos do que nessa temporada, porém, os grandes momentos do Leeds eram quando o time transformava jogos de futebol em jogos de basquete, naquelas situações de que quem ganha a bola sai correndo, quem retoma corre de volta e por aí vamos. 

Às vezes controle do jogo com construções mais curtas poderia fazer bem ao time, mas isso significa correr mais riscos na saída de bola, algo que o Leeds não tem feito quando é pressionado lá atrás. Inclusive, tenho a suspeita de que a
 falta de saída de bola me parece que é imposta pelos adversários, mas também é uma "arma" do Leeds. Bielsa não costuma adaptar muito a saída de bola do time dele. Ao menos não na Inglaterra. Normalmente os dois zagueiros abrem, Kalvin Phillips se posiciona à frente e os laterais avançam... Na prática ficam cinco do meio pra trás e cinco do meio pra frente (o 8, o 10, dois pontas e o 9). Raramente esses atletas de frente descem pra construir... Então Bielsa meio que assume a situação e pensa que se subirem quatro ou cinco do adversário para tirar a saída de bola, significa que do outro lado do campo é possível ter cinco contra cinco ou seis. Os lançamentos, no entanto, não estão saindo como deveriam e o Leeds muitas vezes simplesmente devolve a bola, sem sequer ganhar metros no campo. 


Uma solução para tentar jogar mais curto seria ter jogadores mais afeitos a saírem da pressão mesmo pressionados. Mas não é o caso agora. Kalvin Phillips é o melhor deles, mas quando bem cercado fica fora do jogo. As carregadas de bola de Llorente ajudam, mas é só. Cooper, Dallas, Shackleton e em menor medida Struijk têm dificuldades para fazer esse tipo de jogo. Firpo quando jogou não teve tanto impacto também. Então de fato fica um time bem travado nesse quesito. 

Só nesse texto rápido estamos falando que jogadores de ataque não estão bem e os de trás e de meio não conseguem resolver situações que poderiam favorecer os demais. Com a maioria dos outros treinadores a discussão sobre um time que individualmente está mal e coletivamente não entrega seria a de mudanças radicais no estilo de jogo ou em adaptações gigantescas para mudar a forma de a equipe atuar. No entanto, em se tratando de Bielsa não há plano B. Como ele mesmo diz, o plano B é o plano A melhor executado.

Não adianta apontar o dedo. Bielsa acredita nisso. Toda a filosofia de trabalho dele tem a ver com isso. Uma ideia, treinamento, reforçar a ideia, fazer melhor, treinar, jogar, repetir até acertar... Pedir que ele seja diferente é justamente extirpar dele o que ele tem de melhor, o que justamente trouxe o Leeds até aqui.

Então, a
 possível solução seria mudar os jogadores que vêm atuando. No entanto, aí está o grande ponto de crítica desta temporada: o Leeds não reforçou o elenco; o Leeds trocou jogadores.

Nessa janela Firpo veio para o lugar de Alioski, James para o lugar de Hélder Costa e Klaesson para o lugar de Casilla. Embora todos no papel signifiquem acréscimos de qualidade, na prática isso ainda não ficou provado. No mais, o elenco do Leeds é o mesmo do ano passado, com os garotos um ano mais experientes, mas ainda sem serem capazes de resolverem situações nesse nível futebolístico. 

O quanto isso é culpa de Bielsa e culpa do clube é difícil de saber. Eu acho que é mais culpa de Bielsa, que tem a predileção por trabalhar com 18 jogadores profissionais e os sub-23 reforçando o elenco quando necessário. O problema é que numa situação como a atual, dos 18 principais, dois estão machucados há cinco rodadas (Bamford e Ayling), um só jogou uma vez (Koch), três ou quatro estão em fases ruins (Klich, Dallas, Harrison e James) e dois ou três talvez nunca entreguem mais do que têm entregado, ainda que às vezes isso seja insuficiente (Shackleton, Rodrigo e Roberts). Ou seja... Qual o tamanho do grupo de jogadores para decidir jogos a favor do Leeds? 

Os garotos que reforçam os 18 são bons jogadores. Drameh, Cresswell, Summerville, Gelhardt... Todos já provaram ser capazes de manter o nível dos titulares. O problema é que nesse momento é preciso ELEVAR o nível...

Como apontado, o Leeds não contratou para REFORÇAR e sim para trocar jogadores por outros que podem vir a ser melhores que os anteriores. Quando os reforços não mostram essa elevação de nível e os titulares da temporada anterior continuam sendo titulares, mas jogando pior e dois ou três titulares estão lesionados, a situação fica muito difícil.

Mas esse sou eu falando. Marcelo Bielsa não pensa assim. Para ele, Dallas e Harrison vão voltar a ser os da temporada passada. Klich pode se recuperar. Roberts vai se desenvolver em um atleta de Premier League. Rodrigo Moreno merece a confiança e por aí vamos.

Não dá pra dizer que ele está errado. Mas o que Bielsa pede aos fãs, nos tempos atuais, é a maior das loucuras... Esse deve ser o tema do próximo texto.    

sábado, 25 de setembro de 2021

#MOT 02 - O sentir, o decepcionar e o que fazer com isso tudo...

 




Não sabe o que é essa seção do blog? Aqui eu explico: http://dynamodudziak.blogspot.com/2021/09/mot-01-o-comeco-da-temporada-21-22.html

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Cinco jogos na Premier League, nenhuma vitória e apenas três pontos conquistados. 

Se havia alguma dúvida de que seria difícil, agora não há mais... Claro que perder para o Manchester United e para o Liverpool estava meio que nos planos e que empatar com o Everton não é exatamente um mau resultado. Porém, na tabelinha de expectativas estavam duas vitórias contra Burnley e Newcastle. E não foi isso que aconteceu... Dois empates em jogos que na temporada passada foram vitórias. 

O empate contra o Burnley foi ruim porque talvez o mais justo fosse uma derrota, mas a igualdade contra o Newcastle foi um daqueles jogos revoltantes... O Leeds fez um bom primeiro tempo, mas só marcou um gol e perdeu outras cinco chances. O Newcastle por sua vez foi melhorando com o passar dos minutos com um Alain Saint-Maximin endiabrado. Foi dele o empate e poderia ser dele o gol da virada em um segundo tempo aberto, no qual o Newcastle teve mais oportunidades.

Na cabeça dos torcedores do Leeds só fica uma pergunta: o que está dando errado? 

Eu tenho palpites, mas por ora gostaria apenas de compartilhar como é a minha experiência de torcedor sendo também comentarista.

Durante o jogo do Leeds eu fico praticamente cego ao adversário. Só vejo o meu time. As marcações individuais, as movimentações dos homens de frente, os erros de passe, aquele cara que não está correndo (viu Rodrigo?)...  

E vou dizer: eu grito com os jogadores que estão fazendo errado!  Aliás, gritei muito alto quando Ayling recuou uma bola de forma equivocada contra o Newcastle. Tão alto que o gato veio me morder porque ficou estressado...  E ele estava certo. 

Bom, fato é que foi mais uma noite decepcionante.

Depois do jogo fiquei buscando explicações. Perdemos muitos gols, ficamos muito abertos quando perdemos a bola... Será que é não perder a bola em zonas perigosas o problema? Ou é desatenção na hora de encaixar a marcação? Eu fico obsessivo por uns três dias. 

Não que ajude muito se eu conseguir descobrir o problema, mas é como se fosse um alívio para mim... No entanto, também observei que estava com uma negatividade muito grande para com o time.

"Não vai ganhar"
"Vai cair"
"Estou perdendo tempo"

Não quero ter essa relação com o futebol do meu time. É uma das coisas que estou tentando combater no meu dia a dia como comentarista... Quero que recuperemos o prazer de torcer, a alegria de ver e a ansiedade que vem com o pensamento de que tudo é possível...

Por isso, uma hora antes do jogo contra o West Ham, sem Bamford, sem Llorente, Koch, Struijk e talvez sem Raphinha, Ayling e Harrison, vou me forçar a pensar: 

Eles vão conseguir!
Eles são capazes! 
Hoje é o dia da virada! 


A ver! 

domingo, 12 de setembro de 2021

#MOT 01 - O começo da temporada 21-22

Esse post é diferente de todos! 

Tenho esse blog desde 2010 e de lá para cá me concentrei em falar de futebol sob uma perspectiva mais analítica. Às vezes falando sobre tática, às vezes fazendo algumas brincadeiras e ironias com situações absurdas do nosso futebol...  Em nenhum momento, porém, me permiti falar como torcedor. Então agora vou fazê-lo...

Desde 2018 tenho acompanhado tudo do Leeds United de Marcelo Bielsa. Desde que ele chegou foram 144 jogos e acho que eu assisti uns 140, quase todos ao vivo, além de ter ouvido todas as coletivas dele desde então. Desde o ano passado também tenho visto quase todos os jogos do sub-23. Ou seja... Uma boa parte do meu tempo livre está dedicada a esse clube nos últimos anos. Algumas coisas eu compartilho no Twitter - como essas compilações de gols e bons momentos de jogos nos últimos três anos -, outras eu guardo pra mim. 

Às vezes quero falar algumas coisas, mas não tenho muito pra quem e também me inibo com receio de poluir a timeline do Twitter... Então decidi começar a escrever aqui.  Sem obrigação, sem pauta definida, sem sequer a necessidade de fazer muito sentido. 

É bem diferente do que eu me proponho - e espero estar conseguindo - fazer nos outros espaços. Por ser diferente, será uma seção com nome, o #MOT ali do título. Por quê?  Mot é a sigla para o refrão do hino do Leeds United: Marching on Together, ou seja, marchando juntos. Ao mesmo tempo, MOT é meu MOmento Torcedor (hã? hã?).  Mas como o título não é diferença o bastante, também apresento um esquema de cores distinto, com as cores do Leeds! 

Vamos? 

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#MOT 01 - O começo da temporada 21-22
 

Bom, nesse primeiro post vou falar sobre a temporada 21-22 e o que temos pensado sobre. Faço esse post antes do jogo contra o Liverpool pela quarta rodada da Premier League. Estou esperando uma derrota, obviamente, porque a diferença é muito grande.  E diferença grande com time que joga sempre pra ganhar, muitas vezes dá muito errado. Mas nosso treinador é assim! Ele sempre acredita que o time dele pode superar qualquer um! 

Como Bielsa disse em entrevista à Sky Sports, ele tem a "ilusión", a esperança, de que contra o Liverpool "Raphinha, Bamford e Harrison possam ser melhores do que Salah, Jota e Mané" e que ele "sempre pensa que Rodrigo, Phillips, Klich e Dallas serão melhores do que Kanté, Mount e Kovacic". 

E é por isso que nosso treinador é ótimo! Porque não se trata apenas de acreditar, se trata de tentar fazer isso acontecer. É esse o objetivo. E isso passa por desenvolver jogadores e um estilo de jogo que permita a esses atletas - mais limitados - terem um funcionamento coletivo competitivo o bastante para bater de frente com qualquer um. 

Claro que quando o time toma uma pancada como o 5 a 1 para o Manchester United é muito ruim. Eu e todos os torcedores do Leeds pensamos "por que a gente não fechou tudo depois do 1 a 1?" e "será que a gente não podia defender lá atrás em vez de tentar marcar Pogba e Bruno Fernandes individualmente tão longe do nosso gol?", sem esquecer de: "precisamos contratar, no mínimo, mais um volante, um meia, um ponta e um centroavante". 

E aqui entro no grande tema desse começo de temporada 21-22... O Leeds está forte o suficiente para alcançar seus objetivos? 

Quando a janela de transferências abriu, os torcedores tinham enormes expectativas. Falava-se em Rodrigo De Paul, Matheus Cunha, Nandez, Noah Lang e muito mais... No fim, chegaram Junior Firpo e Daniel James. Bons reforços, sem dúvida, ambos têm tudo para acrescentar mais ao time do que Alioski e Hélder Costa, mas nenhum deles é o jogador capaz de elevar o nível da equipe ou de resolver as deficiências do meio de campo, setor no qual há menos opções hoje.  

A sensação da torcida é de que o Leeds precisava se reforçar para seguir crescendo e que, ao não fazê-lo, corre o risco não só de estagnar, como de regredir e de repente brigar para não cair, o que seria terrível, evidentemente.

A sensação do treinador, porém, é a de que todos os jogadores serão capazes de jogar ainda melhor nessa temporada... É a "ilusión" do começo do texto... 

Eu sinceramente não acredito. 

Para mim, tirando Raphinha e alguns mais jovens como Struijk e Kalvin Phillips, todos os jogadores do Leeds já estão no teto de desenvolvimento. Não acho que é possível melhorá-los ainda mais. Mas eu preciso reconhecer que eu não sou Marcelo Bielsa e que ele viu potencial em boa parte desses nomes lá atrás, quando brigar para subir era o maior dos sonhos. 

Daquele time-base da temporada 18-19 na segunda divisão, Ayling, Cooper, Phillips, Dallas, Klich e Harrison seguem como titulares, enquanto Meslier e Bamford viraram titulares no ano seguinte. Ou seja... Do time-base do Leeds na Premier League 21-22, oito eram jogadores da segunda divisão até pouco tempo! Nove se você contar Struijk, que veio da base, mas que jogou mais na Premier League do ano passado do que nas duas temporadas anteriores na segundona.  E esse time de atletas de segunda divisão chegou em nono na Premier League! 

Evidentemente não é que eles tinham um potencial que ninguém via, mas sim que o trabalho deles e o trabalho do treinador fizeram com que atletas medianos da segundona se tornassem postulantes a uma vaga em competição europeia pela classificação na Premier League (ainda que estejamos falando de Conference League...) 

O melhor exemplo de todos é Kalvin Phillips. Aos 25 anos o volante inglês hoje é considerado por muitos como um dos melhores da posição. Foi um dos destaques da Eurocopa e parece ainda não ter chegado ao limite. O que pouco se fala, no entanto, é que quando Bielsa chegou, Kalvin era um camisa 8 que às vezes jogava de 10 e que pouco lembrava o volante forte de pegada no meio, desarmes e lançamentos precisos. 

Isso é trabalho do treinador e o Leeds sabe disso. E aposta demais nisso! Tanto é que nesta janela de transferências, mais do que figuras para o time principal (já citamos Firpo e James), os Whites foram atrás de grandes talentos jovens de outros clubes. Apenas nesta janela chegaram:

- Kristoffer Klaesson, goleiro norueguês de 20 anos que veio do Valerenga

- Amari Miller, ponta inglês de 18 anos que veio do Birmingham

- Sean McGurk, ponta inglês de 18 anos que veio do Wigan

- Leo Hjelde, zagueiro norueguês de 18 anos que veio do Celtic 

- Lewis Bate, meiocampista de 18 anos que veio do Chelsea

Eles já fazem parte de uma segunda geração de jovens que vieram de outros clubes para o Leeds. Na janela anterior o clube contratou 

- Dani van den Heuvel, goleiro holandês, hoje com 18 anos, que veio do Ajax

- Cody Drameh, lateral-direito inglês, hoje com 19 anos, que veio do Fulham

- Crysencio Summerville, ponta holandês, hoje com 19 anos, que veio do Feyenoord

- Sam Greenwood, meia-atacante inglês, hoje com 19 anos, que veio do Arsenal

- Joe Gelhardt, centroavante inglês, hoje com 19 anos, que veio do Wigan


Todos esses jogadores vieram para o time sub-23 do Leeds, com a crença de que poderão em breve reforçar o time de cima. Essa é a estratégia do Leeds. Pegar jovens promissores, terminar a formação e colocar na equipe principal. Me parece muito coerente e sensato, mas é uma estratégia de longo prazo. Hoje o time tem problemas que esses meninos ainda não podem resolver... 

Mas se der certo... Puxa vida! Se der certo o Leeds terá um grande time a um custo baixíssimo na comparação com os gigantes europeus. 

Do meu sofá eu só quero que não seja rebaixado esse ano. Os jogos contra Manchester United, Everton e Burnley mostraram problemas defensivos graves e não estou nada otimista para o Liverpool, como eu já disse... Parece que a luta vai ser mais embaixo nesse ano, infelizmente. Na temporada passada muita coisa deu certo demais para o Leeds... Esse ano deve ser diferente. 

Mas vou exercitar meu bielsismo hoje... Acreditar que Raphinha, Bamford e Harrison serão melhores que Salah, Jota e Mané.  Crer que Meslier terá uma tarde de Alisson e que Llorente e Cooper serão Van Dijk.... Ter a fé de que Rodrigo Moreno vai saber quem pressionar e que Kalvin, Dallas e quem mais jogar sejam capazes de parar o meio de campo dos Reds.


E se não der... Bom. Se não der a gente sente a dor, engole o choro e volta de novo... 

Não tem outro jeito! Não é mais uma escolha torcer ou não torcer.